História, Filme e Documentário

Desafios no Gelo: Grandes Expedições 

Polares

Ambição congelada: A luta pela vida na Antártida

Tragédia no Polo Sul: A desastrosa jornada de Robert F. Scott

Triste fim no Ártico: O voo sem retorno de um balão

Operação Ulusy: O exílio dos calmuques em um inverno 

infernal

O povo do gelo: Os ancestrais dos esquimós

Artigos do Blog.


                   Cena do Endurance encalhado no gelo. https://super.abril.com.br/especiais/a-incrivel-odisseia-de-ernest-shackleton-    na-antartida/

             

A desesperada expedição de Shackleton

Durante mais de um ano à deriva, Ernest Henry Shackleton nunca abandonou a bravura e resgatou sua tripulação numa impressionante aventura na Antártida.

Essa é a história de um insucesso que se transformou em triunfo. Em agosto de 1914, a Expedição Imperial Transatlântica partiu da Inglaterra com uma meta: realizar a primeira travessia do continente antártico a pé. O que deveria ser uma grande expedição transformou-se em uma luta pela sobrevivência. O barco naufragou, ficaram sem comunicação e sem alimentos, e o frio era intenso — mas o desfecho foi positivo. Ao longo de 20 meses, o comandante Ernest Shackleton e seus 27 companheiros enfrentaram todas as adversidades para retornar à civilização.

Shackleton já era considerado um herói nacional, ostentando o título de Sir (Cavaleiro do Império Britânico), quando partiu a bordo do navio Endurance. Ele havia participado de duas expedições polares com o intuito de chegar ao Polo

Sul. Em 1901, com apenas 28 anos, integrou a Expedição Antártida Nacional, comandada pelo capitão Robert Falcon Scott. Durante essa jornada, Shackleton alcançou a latitude 82°17’ sul, aproximadamente 850 quilômetros ao norte do polo, uma marca inédita para um ser humano. Embora não tenha conseguido atingir seu objetivo, enfrentando a fome, conflitos com Scott e adoecendo (de escorbuto), o jovem oficial da Marinha Mercante tomou gosto pelos desafios das explorações polares.

Ernest Shackleton (à esquerda) idealizou a viagem ao Ártico.

httpspt.wikipedia.orgwikiErnest_Henry_Shackleton

Em 1907, após um período de sete meses de preparação, Shackleton voltou a se aventurar em direção ao sul, agora a bordo do próprio navio: o Nimrod. Novamente, a expedição encontrou diversos obstáculos e não obteve sucesso. O explorador, junto com seus três colegas, enfrentou problemas como congelamento e a temida “cegueira da neve”, obrigando-os a abandonar a missão de chegar ao Polo Sul no começo de 1909. Em seu diário, Shackleton registrou a decisão, dizendo: “9 de janeiro – nosso último dia para a frente. Fizemos o máximo de esforço e estamos na latitude 88°23’S”. Restavam apenas 150 quilômetros. Após a chegada da expedição do norueguês Roald Amundsen ao Polo Sul em 1912, Shackleton decidiu mudar de objetivo e se propôs a fazer a travessia a pé, que abrangia quase 3 mil quilômetros, entre a costa do mar de Weddell e o mar de Ross. Com apoio do governo britânico e de importantes patrocinadores, Shackleton obteve os fundos necessários e partiu da Inglaterra em 8 de agosto de 1914, em uma jornada que se tornaria uma das mais notáveis histórias de superação humana do século XX.

O aviso inicial de que aquela jornada não seria fácil chegou na última escala em terra firme. Na ilha Geórgia do Sul, onde existia uma base britânica na época, o comandante ficou sabendo que as condições para navegar naquele ano estavam especialmente complicadas, já que o gelo do mar de Weddell estendia-se muito mais ao norte do que jamais tinha sido registrado. Essa notícia levou Ernest Shackleton a decidir aguardar um mês na esperança de que o clima melhorasse.

No dia 5 de dezembro de 1914, o Endurance partiu em direção ao sul, transportando 28 homens, 69 cães de trenó, dois porcos e um gato a bordo. Dois dias depois, o navio alcançou a borda externa do banco de gelo, que o comandante descreveu em seu diário como “um gigantesco e interminável quebra-cabeças criado pela natureza”. Seis semanas depois, estava completamente bloqueado. O comandante, disfarçando sua decepção diante da crescente possibilidade de um novo fracasso, tentava alegrar a tripulação com partidas de futebol no gelo, jogos de cartas e xadrez, cuidados com os cães e sessões de música e canto.



Shackleton improvisa partidas de futebol e outros jogos para animar a tripulação no primeiro grande impacto que desanimou a expedição. (Fotografia de Frank Hurley).

                                                                                                                                                                                httpswww.bem2030.com.brpessoasensaiolidereshackleton


Não era nada fácil viver naquela situação. As temperaturas caíram de 10°C a 30°C negativos, e os homens foram proibidos de desembarcar. O Endurance gemia e sacudia sob a força dos ventos. “Na noite de 2 de setembro, tive um dos maiores sobressaltos da minha vida. Estava deitado na cama quando o navio literalmente pulou no ar e depois caiu equilibrado na quilha”, relatou o marinheiro William Bakewell. Após nove meses preso no gelo, no dia 27 de outubro, o navio não suportou mais a pressão, então o convés começou a se romper. Shackleton deu a ordem para que a tripulação deixasse o navio, que afundou dois meses depois. “Tudo aconteceu depressa demais, nem tivemos tempo de nos lamentar”, registrou o geólogo James Wordie.

Ainda assustados, os aventureiros montaram um acampamento provisório na banquisa, a apenas 100 metros do casco danificado do navio. Separados em cinco finas tendas de linho e vestidos apenas com roupas de lã, os homens enfrentaram a primeira noite com uma temperatura de 26°C negativos. Existiam somente 18 sacos de dormir feitos de pele animal, que foram sorteados entre os 28 membros da tripulação. Por duas vezes, o grupo treinou iniciar uma marcha por meio do gelo para tentar chegar à ilha mais próxima ou descobrir uma abertura para o mar. Mas a intenção de arrastar três barcos salva-vidas cheios de mantimentos, pesando pelo menos 1 tonelada cada um, logo se mostrou impossível.

Na primeira tentativa, eles percorreram apenas 2,5 quilômetros antes de desistirem e Instalarem um novo posto, denominado “Acampamento Oceânico” (o antigo foi chamado de “Abandonado”). Em cada deslocamento de um local para outro, objetos e alimentos que haviam permanecido no primeiro alojamento eram recolhidos. Em uma dessas ocasiões, o fotógrafo Frank Hurley, responsável por documentar todos os momentos da viagem, recuperou os negativos das fotos. Conjunto ao comandante, selecionou aqueles que aparentavam estar em melhores condições. Ficou com 120 latas e descartou aproximadamente 400. Algumas imagens recuperadas de Frank Hurley ilustram as páginas desse artigo.

Com as vestimentas constantemente molhadas, todos precisaram se adaptar ao frio e a uma alimentação no mínimo estranha, composta por pinguins e focas. As tendas ganharam pisos feitos com tábuas recuperadas do navio e dos canis, mas, mesmo assim, os sacos de dormir muitas vezes ficavam em poças d’água causadas pelo degelo. A caça se reduziu e os cães precisaram ser sacrificados.

No dia 23 de dezembro de 1915, após dois terríveis meses enfrentando o frio intenso, a tripulação começou a desmontar o acampamento novamente com o intuito de buscar, pela segunda vez, um local mais protegido. O grupo marchou com dificuldade durante uma semana, mas só avançou 12 quilômetros. Não restava alternativa senão ficar à mercê do movimento da banquisa e esperar a fragmentação do gelo para lançar os barcos no mar. E, apesar da torcida no novo Acampamento Paciência para que a banquisa os levasse em direção a alguma ilha, em março de 1916 o grupo passou muito a leste da terra firme.

Para aqueles que estão familiarizados com a área, como o biólogo e pesquisador Carlos Alejandro Echeverria, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o fato de esses 28 homens terem conseguido sobreviver acampados em uma camada de gelo (banquisa) é impressionante. “Na área onde eles ficaram, a temperatura não passa de zero grau no auge do verão e o vento de até 160 km/h provoca sensações térmicas de até 40°C negativos”, conta Carlos Echeverria, que passou 16 meses na Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz, instalada na ilha Rei George, no arquipélago de Shetland do Sul.

Hoje, a realidade é bem diferente da que Ernest Shackleton e seus marinheiros viveram naquela época. Há muitas estações de pesquisa na Antártida. De fato, a infraestrutura moderna na Antártida conta com mais de 70 estações de pesquisa (sendo mais de 40 operantes o ano todo) geridas por cerca de 30 países, oferecendo internet, aquecimento e transporte aéreo, uma realidade distante do isolamento extremo enfrentado pela expedição do Endurance. Atualmente, na Ilha Rei George, na Antártida, o tráfego de embarcações e aeronaves é intenso no verão. É possível chegar de navio, avião ou helicóptero. Pela Estação Antártica Comandante Ferraz passam cerca de 120 pessoas por ano, com um limite máximo de 50 pessoas simultaneamente na base. “Temos acesso à internet 24 horas por dia, geradores, telefone e até um posto de correios”, explica o pesquisador. “Sem contar que nossas roupas são bem mais quentes do que as disponíveis naquele século passado. As botas, hoje, são de couro com sola de borracha e possuem um forro especial de lã e fibra de vidro que as torna impermeáveis. E as roupas são feitas de um tipo de pele e lã que, mesmo molhada, esquenta.”

Voltando à viagem de Ernest Shackleton...

Com ausência de comunicação e enfrentando temperaturas extremamente baixas, que era até possível verificar a água congelando, sem contar com uma alimentação muito fraca, foi assim que o comandante Shackleton e seus 27 companheiros conseguiram sobreviver por cinco meses acampados sobre o gelo. Até que, em 31 de março de 1916, uma rachadura na camada de gelo trouxe esperança ao grupo. Uma semana depois, os três barcos de resgate – James Caird, Dudley Docker e Stancomb Wills – foram colocados no oceano. “O gelo estava endiabrado. Era uma corrida louca mantê-los nos trechos de mar aberto... Muitas vezes escapamos por pouco de sermos esmagados quando as massas maiores de gelo colidiam umas com as outras”, registrou Bakewell em seu diário. Ele não fazia ideia de que muitos desafios e dificuldades ainda estavam por vir. Distribuídos em pequenas embarcações a remo, eles enfrentaram sete dias de viagem até chegar à ilha Elephant. Era 15 de abril e haviam se passado 497 dias desde que todos estavam à deriva. A água salgada gelada, com temperaturas entre 2°C e 5°C, e o cansaço da jornada causaram estragos na tripulação. Muitos homens desmaiaram, o sal provocou feridas, a sede inchou as línguas e o frio gerou queimaduras por todo o corpo.

Só que a ilha não era um verdadeiro paraíso. Oferecia pouca defesa contra o mar aberto e, como todos sabiam, estava completamente fora das rotas dos baleeiros. Os ventos impossibilitavam a montagem das tendas, fazendo com que os barcos de resgate fossem colocados em terra para servirem de abrigo. Diante dessa situação, Shackleton decidiu partir em 24 de abril, acompanhado por mais cinco homens, a bordo do James Caird. O objetivo era chegar à estação baleeira na Geórgia do Sul, de onde haviam partido um ano e quatro meses antes. “Eles sabiam que aquele trecho de 1300 quilômetros pelo Atlântico Sul era, e ainda é, um dos piores mares do planeta. E que as chances de sobreviver àquela travessia, no inverno, com um barquinho de 7 metros, todo aberto, eram mínimas”, admira-se Echeverria. Durante a viagem, os seis homens enfrentaram ondas com 20 metros de altura e ventos de 130 km/h. Na ilha, ficaram 22 homens, entre a esperança de um resgate e a incerteza de quando isso ocorreria.

O James Caird passou 17 dias navegando – sendo dez deles enfrentando ventos fortes, tempestades e furacões. Com a ajuda de um sextante que não era muito confiável e do conhecimento do navegador Frank Worsley, o grupo alcançou a baía King Haakon, na ilha Geórgia do Sul, no dia 10 de maio. Anos depois, Shackleton ainda exibia uma marca na mão esquerda, resultante de queimaduras e bolhas daquela jornada. No entanto, a chegada não ocorreu de forma tranquila. Em vez de encontrar um local habitado, os exploradores desembarcaram em uma região isolada e deserta (na verdade, estavam a 240 quilômetros do local das estações baleeiras mais próximas). Shackleton resolveu que ele e mais dois membros da tripulação tentariam atravessar as montanhas cobertas de gelo em busca de ajuda. Sem qualquer equipamento de proteção, levaram 36 horas para alcançar a civilização. O capataz da estação mal podia acreditar no relato daqueles homens em tão péssimas condições.

A alegria de estar seguro, no entanto, não superava a urgência de salvar aqueles que tinham ficado para trás. Após tomar banho, fazer a barba, vestir roupas limpas e se alimentar, Worsley partiu para resgatar os três que esperavam na parte deserta. Nesse ínterim, Shackleton tratava das negociações para retirar o grupo que ficou na ilha Elephant. Contudo, os desafios estavam longe de chegar ao fim. Devido à Primeira Guerra Mundial, havia uma limitação nos navios disponíveis para realizar essa missão.

Enquanto isso, na ilha Elephant, Frank Wild continuou aplicando os ensinamentos do comandante Shackleton, cuidando bem dos 21 homens sob sua responsabilidade, garantindo que eles permanecessem em boa saúde física e mental. Para combater a tristeza e incentivar a fé de reencontrar os colegas, Wild organizava sessões de leitura e músicas. Em relação à alimentação, o clássico menu consistia em focas e pinguins, além do pouco que sobrou do Endurance.

Mais de quatro meses se passaram desde que os seis exploradores deixaram o pequeno James Caird. Aqueles que permaneceram tinham o ânimo e a esperança em níveis muito baixos. O pequeno grupo na Geórgia do Sul não tinha conhecimento das condições do grupo maior — que, por sua parte, nem sabia se os outros haviam alcançado algum destino. Somente no dia 30 de agosto de 1916, o navio chileno Yelcho conseguiu chegar à ilha Elephant. Worsley e Shackleton estavam juntos na parte externa do navio. Em terra, a equipe festejava e exclamava em uníssono: “Estamos todos bem!” Pouco mais de uma hora depois, o grupo embarcou. Shackleton finalmente conseguiu declarar o término daquela aventura frustrante e inesquecível. Em seu diário, o comandante expressou: “Consegui. Maldito seja o almirantado... Atravessamos o inferno, mas não perdi nenhum homem.”

Ernest Henry Shackleton nasceu no dia 15 de fevereiro de 1874, em Kilkea, na Irlanda. Ele se uniu em matrimônio com Emily Dorman em 1904 e tiveram três filhos. Apesar de não ter conseguido alcançar o Polo Sul em suas três expedições, ele é lembrado por seu exemplo de liderança, já que só retornou à Inglaterra após resgatar todos os tripulantes daquele terrível trajeto no gelo.

Corrida ao pioneirismo no Polo Sul termina em tragédia

                       httpswww.coolantarctica.comAntarctica-fileHistoryRobert-Falcon-Scott2.php#googleaudaciosas

No início dos anos do século XX, uma das formas de demonstrar domínio era a exploração de áreas nunca antes alcançadas pelas civilizações da Europa. O objetivo era fincar a bandeira em terras inexploradas. Nesse contexto, um navio britânico — Terra Nova, capitaneado por Robert Falcon Scott — e outro norueguês — Fram, sob o comando de Roald Amundsen — competiram pelo direito de alcançar o Polo Sul. Amundsen almejava ser o primeiro a chegar ao Polo Norte, mas o americano Robert Edwin Peary conseguiu isso antes. Rapidamente, o norueguês elaborou novos planos. Já haviam ocorrido pelo menos duas importantes expedições que se aproximaram do extremo sul. Na primeira expedição (1901-1902), Robert Scott integrava a equipe. Ele anunciou, por meio do jornal The Times, que partiria em breve para uma nova tentativa. Amundsen estava ciente disso e, portanto, manteve tudo em segredo. No dia 9 de agosto de 1910, a corrida teve início quase sem que ninguém notasse: o Fram partiu em direção ao sul com nove homens e 97 cães da Groenlândia.

Com quase dois meses de antecedência, em 15 de junho, Scott partiu de Cardiff, no País de Gales, levando com ele 31 homens, 33 cães, 17 pôneis e três tratores de neve. O britânico só ficou sabendo que tinha um concorrente em 12 de outubro, na Austrália, quando recebeu um telegrama que dizia: “Deixo-o avisado a caminho da Antártida. Amundsen”. O Fram fez a viagem ao continente antártico sem escalas. Em janeiro de 1911, chegou à Baía das Baleias. Nesse mesmo período, o Terra Nova desembarcava em McMurdo, mais a oeste. No dia 20 de outubro, Amundsen e quatro companheiros, em trenós puxados por cães, partiram em direção ao Polo. Treze dias depois, foi a vez de Robert Scott: ele tinha a intenção de cobrir 2. 825 quilômetros, ida e volta.

Os tratores, entretanto, falharam após rodarem 100 quilômetros. Isso fez com que os pôneis tivessem que carregar mais peso, mas eles também não suportaram a carga. Em 6 de dezembro, o britânico descreveu a expedição como "uma total desgraça". Juntamente com mais quatro companheiros, Scott chegou, com grandes dificuldades, ao extremo sul, em 18 de janeiro de 1912. Primeiro, avistou marcas de pegadas; em seguida, a bandeira norueguesa que estava erguida desde 14 de dezembro. Quando Scott chegou ao Polo Sul, Amundsen já tinha nomeado aquele lugar como Plataforma do Rei Haakon VII. Apenas cinco dias depois que o britânico leu essa inscrição, a equipe de Amundsen Roald alcançava a base sem problemas. O grupo de Scott ainda enfrentaria muitas dificuldades. A última anotação em seu diário é de 29 de março, quando dois membros já tinham falecido: “O fim não pode estar longe”. Em novembro, três corpos foram descobertos a 18 quilômetros de um entreposto com suprimentos. Robert Falcon Scott e sua equipe de cinco homens foram sucumbidos ao frio extremo do polo Sul. 

De uma experiência em um balão à morte no gelo

Em 1930, durante uma caçada a morsas na ilha ártica de Kvitoya, um grupo de baleeiros do navio norueguês de caça às focas Bratvaag descobriu a carcaça de um pequeno barco, congelado sob um monte de neve e repleto de equipamentos com a inscrição: "Expedição Polar de Andrée, 1896". Perto dali, jaziam os restos mortais de dois homens, juntamente com vários outros artefatos e diários dispersos. Este foi o desfecho de um mistério que durou décadas e apenas mais um capítulo na longa história do Ártico, marcada por expedições heroicas, porém fadadas ao fracasso.

A segunda metade do século XIX é frequentemente referida como a Era Heroica da Exploração na Antártica. As regiões hostis e ameaçadoras do Ártico e da Antártica estimulavam intensamente a imaginação das pessoas daquela época, não como lugares com suas próprias ecologias e culturas, mas sim como desafios a serem superados por meio da criatividade tecnológica e da coragem masculina. Salomon August Andrée, um engenheiro do escritório de patentes em Estocolmo, compartilhava desse fervor. Admirador do balonismo, Andrée idealizou um projeto que utilizaria o vento para levar um balão de hidrogênio através do Mar Ártico, com o objetivo de alcançar o Estreito de Bering e, em seguida, retornar ao Alasca, Canadá ou Rússia, passando próximo ou até sobre o Polo Norte durante a jornada. Esse também foi um tempo de grande entusiasmo por parte do governo e da sociedade em relação à exploração, muitas vezes voltada para a expansão imperial.

Em 1893, Andrée adquiriu seu próprio balão (construído em Paris, França), chamado Svea, e realizou um total de nove expedições, saindo de Estocolmo ou Gotemburgo e viajando uma distância acumulada de 1. 500 quilômetros. Devido aos ventos predominantes que sopram de oeste, os voos do Svea eram frequentemente arrastados incontrolavelmente em direção ao Mar Báltico, levando sua cesta a se aproximar perigosamente da água ou colidir com as numerosas ilhas rochosas do arquipélago de Estocolmo. Em um episódio, Andrée foi empurrado pelo vento, cruzando o Báltico até a Finlândia. Sua jornada mais longa ocorreu em linha reta para o leste, partindo de Gotemburgo, passando pela Suécia e pelo Mar Báltico até chegar a Gotland. Apesar de ter avistado um farol e escutado o som das ondas contra Öland (ou Olândia, segunda maior ilha da Suécia), Andrée estava convencido de que estava sobre terra e observando lagos.

Durante todas as viagens com o Svea, Andrée experimentou e testou a técnica de navegação utilizando cordas de arrasto que havia criado, a qual pretendia aplicar em sua futura expedição ao Polo Norte. As cordas de arrasto, que ficam suspensas na cesta do balão e tocam o solo em parte de seu comprimento, foram projetadas para compensar a tendência das aeronaves mais leves que o ar a se moverem na mesma velocidade do vento, o que impossibilita a navegação com velas. O atrito gerado pelas cordas tinha a finalidade de reduzir a velocidade do balão até o momento em que as velas pudessem ter algum efeito (além de fazê-lo girar em torno de seu próprio eixo). Andrée registrou e provavelmente acreditou que, ao utilizar a direção por cordas de arrasto, conseguia desviar cerca de dez graus em relação ao sentido do vento em ambas as direções.

Essa ideia é contestada pelos pilotos de balão atuais; a Associação Sueca de Balonismo afirma que a percepção de Andrée de que tinha se afastado do vento estava errônea, sendo causada por falta de experiência e entusiasmo excessivo em condições de ventos instáveis e visibilidade reduzida. O emprego de cordas de arrasto — que podem se romper, se desprender ou se enroscar entre si ou no chão, além de serem ineficazes — não é considerado uma técnica de navegação útil por nenhum especialista contemporâneo.

A elite científica e política da Suécia desejava que o país se tornasse a referência entre as nações escandinavas, algo que consideravam merecido, e Andrée, que era um excelente orador e arrecadador de recursos, conseguiu facilmente atrair apoio para suas propostas. O projeto foi recebido com grande entusiasmo patriótico na Suécia, um país nórdico que havia ficado atrás na disputa pelo Polo Norte. A jornada de balão de Andrée ao Ártico em 1897 foi uma tentativa sem sucesso da Suécia de chegar ao Polo Norte, resultando na morte dos três integrantes da aventura: Salomon August Andrée, Knut Fraenkel e Nils Strindberg.

Andrée desconsiderou diversas advertências iniciais sobre os riscos relacionados ao seu projeto com o balão. Ter controle sobre o balão até um certo ponto era crucial para garantir uma viagem segura, mas havia muitas provas de que o método de direção com corda que ele criou não funcionava como deveria. Além disso, o balão polar Örnen (Águia) foi enviado diretamente a Svalbard pelo fabricante em Paris, sem passar por testes. Quando os dados indicaram que ele estava liberando mais gás do que o previsto, Andrée não percebeu o perigo.

Após o lançamento de Andrée, Strindberg e Fraenkel em Svalbard em julho de 1897, o balão logo perdeu hidrogênio e caiu nas placas de gelo após apenas dois dias. Os exploradores saíram sem ferimentos, mas tiveram que enfrentar uma longa e difícil jornada de volta para o sul por entre a paisagem de gelo flutuante. Mal preparados em termos de vestuário e equipamentos, além de surpresos com a dureza do terreno, eles não conseguiram retornar em segurança. Quando o inverno ártico chegou em outubro, o grupo se encontrou completamente exausto na isolada Kvitoya (Ilha Branca) em Svalbard, onde acabou falecendo.


 

Imagem à esquerda: o balão Örnen (Águia) de Salomon August Andrée, logo após o pouso forçado no Ártico. (Fotografia de Nils Strindberg).


https://pt.wikipedia.org-Expediçao_polar_de_S._A._Andrée


O destino do grupo permaneceu um mistério por 33 anos, até que pescadores e caçadores noruegueses encontraram seus restos mortais, diários e os filmes fotografados por Nils Strindberg, preservados pelo gelo do Ártico. A descoberta fortuita, em 1930, do último acampamento da expedição causou sensação na mídia sueca, na qual os homens mortos foram lamentados e idolatrados.

Calmuques na Sibéria: um exílio forçado

Era um dia muito gelado em 23 de dezembro de 1943, quando tropas invadiram as residências de Elista, que é a capital da Calmúquia, em uma operação conhecida como Operação Ulusy. Eles trouxeram um recado: por determinação do ditador Josef Stálin, toda a população estava sendo forçada a se exilar. Os moradores foram rapidamente levados para a Sibéria em trens e caminhões. Esse foi o início de uma grande humilhação para eles, pois foram transportados em trens, em vagões de gado, enfrentando condições desumanas e temperaturas extremamente baixas. Isso marcou o início de mais um capítulo de atrocidades na História. Duas décadas antes, os camuques haviam se tornado uma região autônoma dentro da União Soviética, mas foram alvo de perseguições e impedidos de praticar o budismo. Em agosto de 1942, uma divisão nazista ocupou Elista e contou com a acolhida de parte dos habitantes, que viam o governo de Adolf Hitler permitindo a prática do budismo e a redistribuição de terras que antes tinham sido coletivizadas. Contudo, meses depois, as forças soviéticas recuperaram a área. O exílio forçado foi a resposta de Stálin pelo suposto “colaboracionismo” com os alemães.

Cerca de 170 mil indivíduos foram sentenciados a andar sem descanso. Na Sibéria, habitaram nas florestas, sob condições climáticas que chegavam a menos de 14°C. Precisavam buscar o que comer e, duas vezes por mês, tinham que se apresentar à KGB, uma jornada de até 15 km, enfrentando condições climáticas adversas, sem comida e debilitados, expostos a ataques de lobos que encontravam ao longo do caminho na mata. No livro Lost Cosmonaut (Cosmonauta Perdido, que não possui tradução em português), Daniel Kalder relata: “Os lobos andavam ao lado dos exilados, esperando que um caísse.” O cotidiano humilhante dessa gente perdurou até 1957, quando foram liberados. Aqueles que retornaram precisaram reaver sua língua e cultura. Com o colapso da União Soviética, antigas mágoas vieram à tona, mas a população, que incluía também russos, contribuiu para a adesão à Federação Russa nos anos 1990. Atualmente, ainda é comum ouvir pessoas mais velhas e outras questionando os visitantes: “Haverá outra guerra?”.


 

 

Durante as viagens que percorriam aproximadamente 15 quilômetros, os Calmuques desafiavam o frio, a fome e as ameaças de lobos selvagens nas florestas da Sibéria.

 

         ChatGPT Image, 17 de agosto de 2026.


Durante a ocupação soviética do leste alemão após a Segunda Guerra Mundial, prisioneiros de guerra nazistas foram detidos em "campos especiais". No entanto, entre esses prisioneiros havia pessoas inocentes, e muitos deles perderam a vida. Os campos de concentração sob o regime de Stalin, chamados de Gulags, tiveram um impacto significativo na economia da antiga União Soviética, especialmente nos anos 50. Os dissidentes políticos eram obrigados a laborar em condições terríveis, enfrentavam torturas e muitos morreram nesse período.

 

Vida nos campos da morte de Stalin a partir de relatos dos sobreviventes.

httpsaventurasnahistoria.com.brnoticiasvitrinea-phtml




Ancestral glacial

Nas águas geladas do Ártico, entre o mar aberto e a imensidão embranquecida pelo inverno rigoroso, havia um grupo de pessoas afastadas do restante do mundo, cuja comunidade se mantinha em algumas pequenas moradias construídas com blocos de gelo. Com seus olhos puxados, os nativos tinham características semelhantes aos asiáticos. Eram robustos e rápidos, demonstrando grande destreza na caça e na pesca, utilizando ferramentas simples, e frequentemente consumiam carne crua nas suas refeições. Isso pode surpreender os europeus que chegavam a essa área, mas os ancestrais dos esquimós já habitavam aquelas terras geladas há milênios. Na Europa medieval, as pessoas viam os povos do norte como hiperborianos, seres lendários de um lugar onde, conforme as lendas da Grécia antiga, o sol não se punha. Os vikings, sendo os primeiros a explorar a Groenlândia no século X, referiam-se a eles como Skraeling. O termo esquimó, que provém do idioma dos índios algonquins, deriva de skimatski, que significa “comedor de carne crua”, e tornou-se esquimó no século XVI.

Antropólogos estavam incertos sobre suas origens até que, recentemente, a análise de DNA de um corpo mumificado (pré-esquimó) encontrado na Groenlândia ajudou a esclarecer essa questão. De acordo com Ernest S. Burch, autor do livro The Skimos (que não possui edição no Brasil), entre 15 mil e 20 mil anos atrás, durante a última era glacial, uma enorme camada de gelo cobriu a região que hoje é o Canadá, isolando os grupos asiáticos que chegaram à América por meio da “ponte de terra” que existia entre o estreito de Bering e o Alasca — devido ao nível mais baixo do mar, esse caminho se tornou viável. “Os índios americanos (como os algonquins e sioux) são descendentes daqueles povos que foram pegos embaixo do lençol de gelo do Canadá. Os esquimós descendem das pessoas que continuaram em algum lugar a norte ou oeste”, afirma Burch, que trabalha no Centro de Estudos do Ártico, ligado ao Museu Smithsonian, nos Estados Unidos.

Hoje, há duas principais categorias conhecidas como esquimós: os inuits (ou esquimós do leste) e os yupiks (os do oeste). No extremo norte do Canadá e na Groenlândia, cerca de dois terços pertencem ao primeiro grupo (que inclui várias subdivisões, como inupiat e inuvialuit). Embora compartilhem características linguísticas, existem variações culturais e genéticas em relação aos yupiks, que são encontrados principalmente na Sibéria e no Alasca e também possuem subgrupos, como os naukans e alutiiqs.

Comparamos uma etnia real do tema mencionado anteriormente com a narrativa de um filme (drama/aventura), que serve como um exemplo autêntico de sobrevivência em um clima gelado: mostra precisamente a luta pela vida na tundra do Ártico canadense. No filme “Desafio no Ártico”, o personagem principal, Charlie Halliday, se depara com a jovem indígena Kanaalaq, que faz parte da etnia inuit (um grupo nativo das áreas árticas do Canadá, Alasca e Groenlândia). The Snow Walker (“Desafio no Ártico”) é uma produção canadense, lançada em 2003, inspirada no conto Walk Well, My Brother ("Caminhe bem, meu irmão") de Farley Mowat. A direção e o roteiro ficaram a cargo de Charles Martin Smith, com atuações de Barry Pepper, James Cromwell e Annabella Piugattuk. É relevante destacar que a sobrevivência retratada no filme está intimamente ligada ao saber tradicional inuit acerca do ambiente; a salvação do piloto Charlie Halliday foi resultado da experiência da indígena Kanaalaq.

https://filmow.com/desafio-no-artico-t392/


Outros bons filmes com cenário bastante gelado: “O Enigma de Outro Mundo” (The Carpenter, lançado em 1982); “Stalingrado: A Batalha Final” (Stallingrad, 1993); “Risco Máximo” (Cliffhanger, 1993); “Fargo: Uma comédia de erros” (Fargo, 1996); “Limite Vertical” (Vertical Limit, 2000); “Círculo de Fogo”  (Enemy at the Gates, 2001); “Avalanche” (Nature Unleashed, 2004); “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, 2004); “Resgate Abaixo de Zero” (Eight Below, 2006); “A Perseguição” (The Grey, 2011); “A Colônia” (The Colony, 2013); “O Regresso” (The Revenant, 2015); “Evereste” (Everest, 2015); “Noite de Lobos” (Hold the Dark, 2018); Togo (2019); “O Céu da Meia Noite” (The Midnight Sky, 2020) ; Downhill (2020); “Inferno no Gelo” (Preboj ou Breakthrough, 2020).

As explorações do homem civilizado na região gelada trouxeram muitas descobertas arqueológicas, engrandeceram o estudo científico que desvendam até hoje, mistérios que antes eram desconhecidos pela humanidade, porém, algumas dessas aventuras deixaram terríveis tragédias, a fúria do inverno e suas tempestades severas ceifaram muitas vidas daqueles que desafiaram o continente Antártico.

 

Notas e Referências:

Revista Superinteressante (Especial). “Grandes Expedições: Shackleton luta pela vida na Antártida” (pp. 18 a 25). São Paulo: Editora Abril, Edição 201 – A, julho de 2004.

Busque na internet: uma famosa competição para chegar ao Polo Sul entre o norueguês Roald Amundsen e o britânico Robert Falcon Scott ocorreu entre 1911 e 1912, https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/terra-nova-a-malfadada-expedicao-ao-polo-sul-que-terminou-em-tragedia.phtml; “Uma expedição desapareceu aqui... e a encontraram 33 anos depois.” Kvitoya – Latitudes perdidas (Vídeo Documentário), https://youtube.com/kvitoya:o-que-encontraram-aqui?/; Wikipédia: “Expedição Polar S.A. Andrée”, https://pt.wikipedia.org; “A primeira expedição ao Ártico em um balão”, https://nahistoriadehoje.wordpress.com.

Revista Aventuras na História: “Castigados na Sibéria” (p. 10). São Paulo: Editora Abril, edição 91, fevereiro de 2011.

A revista Aventuras na História, nas páginas 34 a 37, apresenta um panorama sobre as tribos que habitaram o Ártico há milhões de anos: “Abaixo de Zero”. São Paulo: Editora Abril, edição 88, novembro de 2010.

Ainda na internet: há mais de cem anos, Robert Flaherty lançou "Nanook, o Esquimó" (Nanook of the North, 1922 — o documentário celebrou seu centenário em 2022), o filme que ficaria conhecido como a pedra fundadora do cinema documentário. Ao registrar o cotidiano de Nanook e sua família, o produtor tipificou o povo inuit a partir desse personagem e garantiu seu lugar no panteão dos grandes cineastas da história. Robert Flaherty foi o principal criador de “Nanook, o Esquimó”, atuando simultaneamente como diretor, produtor, cineasta (fotografia) e roteirista do projeto. Assista ao vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=g_rsKqoBrFY.

Alguns textos foram adaptados por José Jansen Furtado – pesquisas, 2026.

Ilustrações por Francisco Furtado, busca na internet em 17/08/2026.                                                                                                                                                                                                                                                                                          A Imagem acima à direita (homem com frio) foi criada pelo chatGPT em 17/08/2026.

                                                                                                                                                

                                                            

 

 

 

 

 

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