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O Advento e o Natal: Suas origens...

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Dádiva1: “Não devemos permitir que alguém saia de nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”.

                                                                       Madre Teresa de Calcutá.

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O Advento

Simboliza o começo do ano litúrgico para os fiéis católicos, caracterizado por um clima de expectativa e preparação para o Natal. Ao longo de quatro semanas, a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre a vinda de Cristo, seja em sua primeira vinda, seja no enigma de sua segunda vinda triunfante. O Advento vai além de uma mera contagem regressiva para o Natal, sendo uma chance de reforçar a nossa fé, um período de mudança, prece e ponderação sobre o real sentido da encarnação de Jesus.

O Advento é uma fase litúrgica marcada pela expectativa e pelo preparo. Durante esse período, a Igreja nos guia na celebração do mistério do nascimento de Jesus Cristo, que, sendo Deus, tornou-se humano. Ao mesmo tempo, somos lembrados de que essa história ainda não se completou: aguardamos a sua segunda vinda, em toda a sua glória, para julgar os vivos e os mortos.

No entanto, essa espera não é passiva. É a hora de abrir os olhos para perceber que a mesma fé que nos faz olhar para Belém também nos convida a preparar nossos corações para o retorno do Senhor. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a chegada do Messias foi preparada ao longo de toda a história da Antiga Aliança. Assim, o Advento também nos conecta ao povo de Israel, que aguardava o Messias com grande esperança.

Vivemos em períodos em que esperar é visto como desperdício de tempo. Mas o Advento nos desafia a reencontrar a importância do silêncio, da atenção e da conversão. Afinal, não esperamos por um acontecimento qualquer: esperamos pelo Senhor cuja chegada alterou permanentemente a história da humanidade e cuja promessa nos sustenta enquanto aguardamos a plenitude de seu Reino.

Nas semanas que levam ao Natal, as igrejas do mundo todo celebram o Advento – um período de reflexão e preparo para o nascimento de Jesus Cristo. Coroas do Advento com velas acesas, como a que está dentro da igreja Sankt-Petr, em Magdeburg, Alemanha, simbolizam luz nos dias escuros do inverno.

Advento recebe o nome de adventus, a palavra latina para “chegada”. À medida que a igreja cristã se solidificou, no século 5 d.C., o mesmo aconteceu com as tradições por volta de 25 de dezembro.

Por fim, essa preparação ficou conhecida como Advento. No século VI, os cristãos na França celebraram um “St. Quaresma de São Martinho”, que incluía jejuns e abstinência de relações sexuais antes do Natal.

O Advento agora é considerado a primeira estação do ano litúrgico, o ciclo anual da Igreja Católica de dias de festa e leituras das Escrituras. Assim como seus ancestrais, os cristãos modernos o veem como uma época de preparação em honra a Cristo.

Cada domingo tem um significado tradicional, orações e leituras atribuídas a ele. Eles representam, em ordem, as virtudes cristãs de amor, alegria, esperança e paz. Para os crentes, o Advento representa um período multifacetado durante o qual se prepara para o nascimento de Cristo, celebra a fé, a conversão ao cristianismo e antecipa a eventual ressurreição do filho de Deus.

Espiritualmente, o Advento está profundamente ligado ao anseio messiânico do povo de Israel. Desde os patriarcas até os profetas, a história da salvação está marcada pela promessa de um Salvador que libertaria seu povo. No Advento, essa espera se renova, unindo-nos à história do povo eleito e nos convidando a viver com a mesma esperança que sustentou os justos do Antigo Testamento.

A origem do Natal

Mistura comemorações pagãs romanas, como a Saturnália (festa do deus Saturno) e o Sol Invictus (Deus Sol), com a festividade cristã que celebra o nascimento de Jesus Cristo em 25 de dezembro, data oficializada no século IV pela Igreja Católica para converter e ressignificar essas festas pagãs. O termo vem do latim "natalis" (nascer), e costumes como troca de presentes e decorações foram incorporados de rituais antigos, como as celebrações nórdicas de Yule2.

Um Natal diferente. Conforme relatos intrigantes da revista Super Interessante, uma outra contribuição originária nórdica é a noção de uma entidade mística que presenteia as crianças durante o Yule. Em várias tradições da Escandinávia, um gnomo3 realiza essa tarefa, uma prática que se mantém até os dias atuais. Com o tempo, essa figura foi se tornando mais humanizada, dando origem ao Papai Noel.

Ásia Menor, século IV. Três garotas da cidade de Myra (atual Turquia) estavam em uma grande dificuldade. O pai delas era um homem muito pobre, e as moças só viam uma saída para essa condição: entrar na prostituição, assim iriam escapar daquela miséria insuportável. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso lançou um saquinho de ouro pela janela da casa (alguns diziam que tinha sido pela chaminé) e desapareceu. Na noite seguinte, jogou outro; depois, mais um. Um para cada garota. Então as jovens usaram o ouro como dotes de casamento – não era possível encontrar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre. Tudo por causa do homem dos saquinhos.

O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myta, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lendas são muitas. Nicolau seria um homem rico que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a bondade do bispo, como a das moças que escaparam da vida de um bordel, se tornaram famosas. Logo atribuíram todo tipo de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou São Nicolau. Um santo versátil: padroeiro das crianças, dos comerciantes e dos marinheiros, que espalharam sua fama de bom coração por todas as partes da Europa.

Na Rússia e na Grécia, Nicolau tornou-se o santo nº 1. No restante da Europa, a imagem amigável do bispo de Myra se misturou com as tradições do Natal. E ele se tornou o doador oficial da data. Na Grã-Bretanha, começaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Noel). Os franceses criaram Pére Nöel, que significa a mesma coisa e originou o nome que usamos aqui no Brasil. Na Holanda, o Santo Nicolau abreviou-se para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixo levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (hoje Nova York) no século XVII – daí o nome Santa Claus que os Estados Unidos adotaram depois. Assim, o Natal que conhecemos estava chegando ao mundo, mas nem todos aceitaram a ideia.                                                                                    

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/

  Antiga lenda natalina: trenó do Papai Noel com tração de renas mágicas voadoras.

Um velhinho moderno. Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais clara, foi a produção em massa. Ela aumentou a indústria de presentes, fez nascer a publicidade de Natal e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais famoso do mundo. Até a metade do século XIX, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra – aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se adequar aos tempos modernos, então, o homem passou por uma mudança. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, removeu as referências religiosas, adicionou alguns quilos a mais, mudou o figurino vermelho e estabeleceu a sua residência no Polo Norte – para que o velhinho não pertencesse a nenhum país. Na lenda também inventaram um trenó (carro da Neve) que é puxado por nove renas mágicas. A bordo, ele leva um grande saco de presentes, que são distribuídos às crianças na noite de Natal. Assim, reforça muito mais o mundo de aventura e fantasia do mito natalino.

O verdadeiro Natal é uma celebração cristã que comemora o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, de acordo com a Enciclopédia Britannica, a origem da festa envolve mais aspectos do que apenas o aniversário do profeta mais significativo do cristianismo.

De acordo com a Enciclopédia Britannica, a origem exata de escolher o dia 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus não é clara. Isso porque não existem indícios sobre isso no Novo Testamento da Bíblia católica.

Segundo a National Geographic Brasil, “Saturnália é um festival romano de uma semana (dezembro) dedicado ao deus da agricultura, com celebrações, refeições e troca de presentes”.

Uma explicação simplificada da origem desta data é que, em 25 de dezembro, aconteceu a cristianização do dies solis invicti nati (dia do nascimento do sol não conquistado), segundo a fonte inglesa. O feriado era famoso no Império Romano e festejava o solstício de inverno (no Hemisfério Norte) como símbolo do renascimento do sol, ao mesmo tempo em que também marcava o começo do inverno e o anúncio do renascimento da primavera e do verão.

Também é confirmado pela BBC, que afirma: “No dia 25 de dezembro, celebrava-se o ‘nascimento do sol invicto’, um momento de mudança no inverno, quando os dias começavam a ser mais longos, simbolizando renovação.”

A data foi associada ao nascimento de Cristo por cerca de 221 d.C., sendo divulgada por Sextus Julius Africanus, um viajante e historiador cristão do fim do século II e começo do século III, tornando-se, assim, amplamente conhecida nos séculos posteriores.

Mas a ligação com o festival pagão romano ainda estava presente. Após a data de 25 de dezembro ser amplamente reconhecida como a de nascimento de Jesus, os escritores cristãos da época associavam frequentemente o renascimento do sol ao nascimento do “Filho de Deus”.

Ainda segundo a Enciclopédia Britannica, essa ideia mostra uma atitude neutra da Igreja Católica de adotar uma celebração pagã em um período em que ela queria se separar claramente das crenças e práticas pagãs.

Uma segunda visão, diz a Britannica, sugere que a data do nascimento de Jesus se tornou o dia 25 de dezembro por um pensamento que associou o equinócio da primavera (21 de março) como a data da criação do mundo.

Conforme as escrituras cristãs, esse período levou sete dias. Sendo assim, o quarto dia da criação, quando surgiu a luz, é considerado o dia em que Jesus foi concebido (ou seja, 25 de março). Por isso, 25 de dezembro, nove meses depois, é uma data que faz sentido para seu nascimento.

O Natal começou a ser festejado de forma significativa como uma liturgia cristã particular desde o século IX. Entretanto, segundo a Enciclopédia, foi no início do século XX que essa festa se transformou em um feriado familiar, sendo celebrada por cristãos e não-cristãos, deixando de lado os aspectos religiosos e se tornando mais conhecida pela troca de presentes.

Na antiguidade, também celebravam a data, seja pela chegada do inverno ou pela passagem do tempo. A partir do século IV, e com a consolidação da Igreja Católica em Roma, a festividade foi oficializada como dies natalis Christi (Natal de Cristo). Como não se sabe ao certo o dia em que Jesus nasceu, essa foi uma forma de cristianizar as festas pagãs romanas, dando-lhes uma nova simbologia.

O termo Natal tem origem na palavra do latim “natalis” que, por sua vez, é derivada do verbo nascer (nāscor).

A escolha da data foi ratificada em 350 d.C pelo Papa Júlio I (337-352). Desde então, o Natal passou a ser comemorado em diversos países, normalmente marcado pela celebração da renovação e do nascimento.

No Natal surgem vários sinais representativos dessa comemoração festiva, cada qual com um significado distinto e com origem pagã ou religiosa. Quando falamos no nascimento de Cristo, o que mais representa na nossa mente é o presépio, afinal ele retrata o cenário onde o menino Jesus nasceu. E aí, de forma conjunta ou isolada, conhecemos os componentes que nele figuram: a sagrada família, composta por Jesus, José e Maria, os três reis magos, o anjo e a estrela.


estrela-belemhttpsbrasilescola.uol.com.brnatalsimbolos-natal.htm
 

 Notas e Referências:

(1) Dádiva aqui se refere a cada pessoa que encontramos; elas são o real presente que merecem nossa atenção, amor e afeto.

(2) Yule: Antiga celebração pagã germânica e nórdica que marca o Solstício de inverno (o dia mais curto do ano), celebrando o renascimento do sol e a volta da luz, com tradições como queimar uma grande tora (tronco de Yule) para atrair boa sorte e prosperidade, sendo uma celebração ancestral que influenciou muitos símbolos e costumes do Natal cristão.

(3) Gnomo: Proveniente do latim gnomus, este ser hipotético é descrito como um anão de aspecto grotesco e feio, que, conforme a crença dos cabalistas, reside nas profundezas da Terra e guarda suas riquezas, pedras ou metais preciosos.

Revista: Super Interessante (A Verdadeira História do Natal, pp. 88 a 91), São Paulo: Editora Abril, Edição 233, dezembro de 2006.

Busca na internet: https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2022/12/qual-e-a-origem-do-natal-segundo-a-historia; https://bibliotecacatolica.com.br/blog/formacao/advento/; https://www.todamateria.com.br/historia-do-natal/; https://www.google.com/, pesquisado em 2025.

Feliz Natal e Boas Festas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HISTÓRIA E CINEMA

Piratas e Corsários: Aventuras e Lutas no Mar do Caribe


Por José Jansen Furtado*

Ilustração e montagem: Francisco Furtado

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Um navio, sob a bandeira dos piratas, com as duas tíbias, os ossos tradicionais cruzados embaixo de um crânio (caveira) humano. Havia riscos, porém, eles se desvinculavam de qualquer temor para viver plenamente, enfrentavam qualquer perigo. O destino era incerto, a aventura era o mar aberto sem limite de navegar, ou direito a voltar, esses eram alguns dos seus audaciosos desafios.

Ultrajados com a sociedade, eles enfrentavam os mares e oceanos por si próprios e só se associavam com seus irmãos da costa, que muitas vezes se comunicavam por gestos de sopapos e pontapés, ocorridos nas tabernas dos portos clandestinos ao longo do mar do Caribe. Seus principais costumes no cotidiano, - após um rico butim que roubavam dos navios mercantes – eram desfrutar-se, sem limite, de bebidas como rum e acompanhados de garotas (concubinas da vida) nas rápidas passagens nesses lugares de diversão. E se por acaso alguma mulher quisesse viver a aventura com esses marujos desonestos, elas que se transvestissem de homem para se misturar à tripulação – semelhante a Anne Bonny e Mary Read, lendárias piratas do Caribe no século XVIII.

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A imaginação e a criatividade dos escritores de livros e roteiristas de filmes contribuíram bastante com as fascinantes aventuras desses indivíduos piratas – no cinema, “Piratas” de Roman Polanski, na literatura “A Ilha do Tesouro” de Robert Louis Stevenson. Chapéu tricórnio ("chapéu de três bicos"), roupão colorido, brincos nas orelhas, cabeça coberta com um lenço, um tapa-olho, papagaio no ombro, tatuagens nos braços, um cinturão portando uma pistola (flintlock) ou como as nossas “garruchas”, um punhal pontiagudo e uma espada afiada: o pirata sempre se destaca como um homem livre e destemido, desafiador da lei e das obrigações da sociedade. Frequentes escritos na leitura ou em cenas de filmes, se vê um homem adentrar um navio com uma perna normal e a outra de madeira - e que sempre dizem, “cortada pelo inimigo ou devorada por um tubarão” – para abordar novos horizontes, regiões que esplandece uma natureza intacta, ar puro, cenários de relevantes belezas que associam aos sonhos e fantasias fantásticas, como ainda povoadas por animais selvagens, plantas exóticas e indígenas canibais. O personagem típico do pirata rebelde inspirou a criação de muitas histórias para a literatura, que acabou enriquecendo o cinema mundial.

A "Era de Ouro da Pirataria" é geralmente considerada o período de 1689 a 1718 na América. Com o crescimento da navegação pelo Atlântico e Caribe, piratas bem-sucedidos, muitos dos quais iniciaram suas carreiras como corsários, tiveram a oportunidade de atacar embarcações carregadas de ouro, prata e outros utensílios valiosos para ganhar a vida. Conforme suas riquezas prosperavam e sua busca por tesouros aumentava, os alvos de pilhagem logo deixaram de ser apenas pequenos navios mercantes. Os piratas atacavam grandes comboios, conseguiam repelir navios de guerra de grande porte e se tornaram uma força a ser considerada. Assim, a violência era o destino diário daquela gente do mar.

A solidariedade era quase inexistente entre esses ambiciosos. Eles estabeleciam um tipo de pacto entre as “irmandades”, mas apenas quando lhes era conveniente.  Geralmente, trocavam o “capitão” ou outro prisioneiro importante por uma parte dos lucros em valiosas quantidades de moedas, ou até mesmo por um mapa que indicava o esconderijo de uma grande fortuna.

Piratas X Corsários

No final do século XVII e início do século XVIII, diversos navios privados obtiveram uma licença da monarquia britânica, sob a comissão de guerra, que autorizava o saque de embarcações de nações rivais. Essa licença era conhecida como carta de marca (ou "letter of marque" em inglês) ou carta de corso. Ela tornava legal a ação dos navios, autorizando-os a atacar e saquear embarcações de países adversários, desde que cumprissem algumas normas determinadas pela Coroa.               

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Os corsários atuavam com a autorização e em nome de um governo específico, transformando suas ações em uma guerra naval aprovada pelo Estado, em vez de um crime comum. Os saques eram geralmente compartilhados com a Coroa, o que transformava essa prática em uma estratégia rentável e em um instrumento político significativo, particularmente para a Inglaterra, no enfrentamento de potências como a Espanha.

Os ingleses sentiam-se ameaçados pela Invencível Armada espanhola, montada graças ao ouro saqueado das Américas. Em 1567, com suas naus equipadas com o que havia de mais moderno em matéria de armas de fogo, a Espanha acabou por bloquear o tráfego comercial marítimo entre as Ilhas Britânicas e os Países Baixos. Para dar o troco aos espanhóis, a Inglaterra criou e manteve durante vinte anos uma verdadeira frota mercenária: os corsários, navegadores aos quais outorgavam cartas de corso (do latim cursus, viagem ao mar para caçar os navios mercantes de nações inimigas para saquear). Tratava-se, na verdade, de autorizações para roubar: as cartas permitiam que eles abordassem os galeões espanhóis que traziam para a Europa as riquezas das colônias do Novo Mundo.

O ambiente era o mar das Antilhas, na região da América Central. A vantagem para os britânicos era que as frotas que transportavam os tesouros espanhóis tinham horários fixados para sair e rotas específicas, facilitando a atuação dos piratas. No entanto, os defensores eram agressivos, uma vez que os comboios sempre recebiam escoltas fortemente armadas. O financiamento que a Inglaterra destinava à pirataria garantia retornos positivos. Apesar dos altos custos, o lucro obtido com os saques valia a pena. De fato, a Inglaterra não era o único país cujo comércio internacional sentia os efeitos da presença espanhola nas águas – e por isso apelava para os corsários. A França, por exemplo, também utilizava essa estratégia. Os espanhóis, decididos a defender o seu território no Caribe, atacava-os frequentemente, por meio de patrulhas marítimas e invasões aos assentamentos britânicos. Os confrontos entre ambos, tanto dos navios quanto nos acampamentos, foram extremamente brutais, usavam de seus poderes bélicos e tornavam os ambientes das batalhas num “mar de sangue”.

Os piratas eram diferentes dos corsários. Derivado do grego peiratēs, que significa bandido, refere-se a uma variedade de ações ilícitas no âmbito náutico, como ataques à costa e abordagens de embarcações em alto-mar. Roubo, sequestro e assassinato são considerados atividades piratas, desconsiderando acordos, leis ou imposições das monarquias e impérios.

A tática do pirata do mar das Antilhas consistia em uma única palavra: abordagem. O êxito dependia da determinação, ou melhor, da temeridade dos homens do navio. Numerosos, eles manejavam o sabre de abordagem e o punhal. Combatiam aos pares, porque sempre se juntavam em duplas e se chamavam, um ao outro, de matelot (marujo em francês). Após um roubo bem-sucedido, esses homens sem família celebravam, se embriagando livremente com rum da Jamaica e compartilhando amistosamente as mulheres que haviam capturado.

O pirata era um indivíduo malévolo, um criminoso, um marginal ligado por motivos pouco revelados a outros delinquentes - indisciplina, deserção, motim, delito e homicídio. O pirata, em qualquer época, sempre teve a fama de ser um bandido muito ganancioso em suas ações para conseguir tesouros. Ele atacava um navio no mar, se possível ricamente carregado, que pilhava após eliminar a tripulação, vencida pela abordagem e morta, porque, para eles, não existia forte ou quartel fixo onde serviria de cárcere, não aceitavam prisioneiros, coisa que ocorria com os seus algozes civilizados.

Para completar, os piratas desembarcavam em qualquer ilha que já era ocupada por mestiços ou homens degredados, um lugar sem leis ou domínio, no caso da Ilha de Tortuga (Île de la Tortue), perto do Haiti, que era um famoso esconderijo e centro de piratas e bucaneiros no século XVII, servindo como base para atacar navios espanhóis e negociar bens roubados, aproveitavam o curto tempo de passagem para suas bebedeiras. Se por acaso o local fosse uma colônia dominada e regularizada por uma nação - geralmente europeia - eles invadiam para saquear, transformando o lugarejo num inferno de fogo e destruição, imagem típica dos antigos bárbaros.

Inicialmente, os piratas identificavam o ambiente onde pisavam, especialmente na costa de uma ilha ou estreito, seus lugares favoritos em uma rota marítima frequentemente navegada. Ali precisavam do local como base logística – água potável, víveres (frutas, peixes, pássaros e até animais selvagens), madeira para lenha e consertos da embarcação. Em alguma ilha menos frequentada, aproveitavam para esconder alguma parte de seus tesouros. Também era local de planejamento de seus assaltos aos navios, as vezes procuravam uma caverna para passar a noite, assim podiam acender suas fogueiras sem despertar o inimigo.

Tragédia no Atlântico 

Havia também os imprevistos, como o perigo dos naufrágios. Segundo a revista Aventuras na História, explica um desses episódios no tempo do tráfego de minérios da América para a Europa:

[...] A derrota para os ingleses ficou a expansão do Império Espanhol, mas não o impediu de continuar explorando suas colônias na América. Galeões voltaram para a Espanha cheios de prata, ouro, pedras preciosas e produtos agrícolas. Normalmente, viajavam em comboio por questão de segurança. Em 4 de setembro de 1622, junto a outros 22 barcos, o Nossa Senhora de Atocha zarpou de Havana (atual capital de Cuba) com a missão de proteger a retaguarda da frota.

Após a partida, o clima começou a piorar. O mar ficou revolto e, no dia seguinte, o Atocha e outras quatro embarcações entraram numa grande tempestade. Era um furacão. Com as velas danificadas e os mastros partidos, o galeão já não podia manobrar. Em 6 de setembro, foi lançado contra recifes e afundou rapidamente. Das 265 pessoas a bordo, apenas cinco se salvaram.

A carga submersa ficou conhecida como o Tesouro das Américas: incluía 24 toneladas de prata e 125 barras de ouro. Os esforços para encontrar o Atocha só cessaram em 1985, quando a equipe da Treasure Salvors, empresa americana especializada em buscas submarinas, o localizou no sul da Flórida, recuperando parte do tesouro. (Aventuras na História, 2006, pp. 45 – 46). 

Batalha Naval no Brasil 

Piratas e corsários atacaram a costa brasileira desde o início da colonização, com o objetivo de roubar riquezas como pau-brasil, açúcar e ouro. Os franceses, ingleses e holandeses, sendo os mais frequentes, utilizam lugares como Ilhabela e Rio de Janeiro como bases e alvos.                                                                         

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Para afastá-los do Brasil e impedir que tomassem a terra, a coroa portuguesa enviou várias expedições guarda-costas. Em 1516, liderada por Cristóvão Jacques, no comando de duas caravelas, recebeu a missão de patrulhar a costa brasileira, com o intuito de desencorajar as investidas de corsários franceses. A 21 de julho de 1521, partiu novamente da foz do rio Tejo com destino ao Brasil, estabelecendo em Pernambuco a Feitoria de Itamaracá, em um dos portos mais conhecidos do litoral brasileiro, onde havia abundância de pau-brasil e frequentes interações entre indígenas e europeus, antes de continuar para o Sul até o rio da Prata.

Entre elas, destacaram-se as expedições de 1526 e 1527. Cristóvão Jacques, tendo retornado mais uma vez no comando de um navio grande e cinco caravelas, enfrentou muitos combates com corsários franceses. Em 1527, capturou três galeões franceses no Recôncavo da Bahia, fazendo 300 prisioneiros, levados para a Feitoria de Pernambuco. Apesar da brutalidade com a qual lidava com os piratas e corsários, decapitando-os ou torturando-os, a expedição de Cristóvão Jacques não teve sucesso, a costa brasileira era muito longa e dificultava a patrulha.

Piratas e corsários que atuaram no mar do Caribe durante a “Era de Ouro da Pirataria”

Edward Teach (também conhecido como "Thatch") nasceu na cidade portuária inglesa de Bristol por volta de 1680. Embora não se saiba ao certo quando Teach chegou ao Caribe, é provável que tenha desembarcado como marinheiro em navios corsários durante a Guerra da Sucessão Espanhola, na virada do século XVIII.

Teach pode ter permanecido como corsário durante o conflito, mas antes disso, ele se juntou à chalupa do pirata Benjamin Hornigold, que também atacava na costa jamaicana. A principal diferença agora era que Teach estava assaltando e eliminando seus antigos patrões, os britânicos. Teach certamente estabeleceu sua reputação. Sua determinação feroz e coragem incomparável o impulsionaram a uma rápida ascensão na hierarquia até alcançar a mesma fama de Hornigold. Enquanto seu mentor aceitou uma proposta de perdão do governo britânico, Barba Negra decidiu continuar no Caribe, comandando um navio que havia capturado e renomeado de Vingança da Rainha Ana.

Barba Negra tornou-se o pirata mais famoso e temido do Caribe. Segundo as lendas, ele era um gigante com uma barba escura que cobria metade do rosto, vestindo um grande casaco vermelho para parecer ainda maior. Carregava duas espadas na cintura e bandoleiras repletas de pistolas e facas cruzadas no peito.

Alguns relatos chegam a dizer que, durante uma briga, ele enfiou bastões de pólvora em seus longos cabelos para aumentar ainda mais seu aspecto aterrorizante. Provavelmente nunca saberemos exatamente qual era sua aparência, mas não há dúvida de que ele foi bem-sucedido, já que pesquisas recentes descobriram que ele capturou mais de 45 embarcações, apesar de sua carreira relativamente curta como pirata. Em 22 de novembro de 1718, com uma enorme recompensa por sua cabeça, Barba Negra foi finalmente morto em um duelo de espadas com fuzileiros navais reais no convés de seu navio. Como um poderoso símbolo para qualquer um que ousasse seguir seus passos, a cabeça decepada de Barba Negra foi levada ao governador da Virgínia.

Outros destemidos corsários e piratas: Francis Drake, Benjamin Hornigold, Charles Vane, Jack Rackham (“Calico Jack”), Anne Bonny, Maria Read, Jean Bart, William Kidd (“Capitão Kidd”), Robert Surcouf, e Bartholomew Roberts (“Black Bart”).

Na verdade, todas essas ações de combate que ocorriam nas Américas eram de forma ilícita, tanto do lado dos piratas quanto dos corsários. Pilhagens ocorriam constantemente, extorsões, ameaças, roubos, assassinatos, sequestros, delitos de várias formas, sem falar de uma crueldade sem limites, por conta própria, ou em nome de Sua Majestade. Os piratas e corsários tocavam horror em qualquer parte dos mares e oceanos. Suas cobiças em conseguir tesouros causaram impactos monstruosos em todos os tempos da história, e ainda é fato relevante na atualidade.                                                        

Conheça mais:

Clássicos e Aventuras Pirata na Tela do Cinema. Os principais filmes de piratas incluem a famosa série "Piratas do Caribe" (com Jack Sparrow), clássicos como "O Cisne Negro" e "Capitão Blood", adaptações de "A Ilha do Tesouro", e escolhas mais atuais como "Mestre dos Mares", além de animações como "Planeta do Tesouro" e "Piratas! - A Vingança de Barbossa", abrangendo desde fantasia e aventura até dramas baseados em histórias reais como "Capitão Phillips". 

"O Gavião do Mar" (The Sea Hawk, 1940): Clássico de Errol Flynn; "O Cisne Negro" (The Black Swan, 1942): Um clássico com Tyrone Power, famoso pela aventura e romance; "Simbad - O Marujo" (The 7th Voyage of Sinbad, 1947): Aventura incrível com efeitos clássicos. E ainda, "O Trapalhão na Ilha do Tesouro", um filme brasileiro de 1974, dos gêneros aventura e comédia, dirigido por J.B. Tanko;  "Hook - A Volta do Capitão Gancho" (Hook, 1991): Steven Spielberg reinterpretando Peter Pan com piratas; "A Ilha da Garganta Cortada" (Cutthroat Island), 1995, dirigido por Renny Harlin e escrito por Robert King e Marc Norman; entre outros desenhos animados como "O Marinheiro Popeye" (Popeye the Sailor), 1929/1933; "As Aventuras de Sinbad Júnior" (Sinbad Jr. and his Magic Belt), 1965; "Os Piratas de Águas Sombrias" (The Pirates of Dark Water), anos 1991 e 1993; e "Jake e os Piratas da Terra do Nunca", da Disney dos últimos tempos.

Principais livros de aventura pirata que expandiram no mundo da leitura: “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson; “Mestre dos Mares”, de Patrick O’Brian; “Uma História dos Piratas”, de Alinf Galeote; “Piratas: Uma História Secreta", de Fernando Moretti; “Contos de Piratas”, de Arthur Conan Doyle; “Os Piratas Fantasmas”, de Willian Hope Hodgson; "Piratas no Brasil: As incríveis histórias dos ladrões dos mares que pilharam nosso litoral", por Jean Marcel Carvalho França e Sheila Hue.                      




  


                                                                         







https://tokdehistoria.com.br/o-navio-pirata-brasileiro/

Notas e Referências:

Revista: História Viva (“Piratas e Corsários”, páginas: 30 a 49), São Paulo: Duetto Editora, Ano I, nº 3, janeiro de 2004; Revista: Aventuras na História (“Passado submerso”, páginas: 42 a 47), São Paulo: Editora Abril, Edição 40, dezembro de 2006.

Almanaque Abril: A Enciclopédia da Atualidade. Editora Abril, 2003; na internet: HistoryHit: https://www.historyhit.com/famous-pirates-of-the-golden-age-of-piracy/; https://super.abril.com.br/historia/no-tempo-dos-corsarios-e-piratas/; https://www.google.com/; https://pt.wikipedia.org/wiki/Cutthroat_Island.

(*) Textos adaptados pelo autor baseados em vários artigos sobre piratas e corsários.

(**) Há vários artigos na redação do blog para serem publicados em breve.

 

MÚSICA E POESIA

Bonito de Santa Fé, um recanto de poetas e boemia.

 

Por José Jansen Furtado*.

Ilustração: Francisco Furtado.

Imagem criada com IA - ChatGPT
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A música brasileira na virada do século XX se destacava pela disseminação de estilos como o choro, o samba e a marcha, além da relevância das partituras para piano e das bandas de música como formas de difusão, enquanto os discos e o rádio começavam a se popularizar. Figuras como Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth desempenharam papéis importantes nessa fase de grande agitação cultural. Ainda persistia um gênero musical popular-urbano que se originou no Brasil e em Portugal durante o século XVIII. Era uma canção de salão, inicialmente influenciada pela ária operística italiana e pela modinha portuguesa. No entanto, no Brasil, adquiriu características próprias, frequentemente incorporando letras de poetas da Arcádia e sendo acompanhada, geralmente, por cravo ou violão. A modinha combinou elementos eruditos e populares, transformando-se em uma expressão musical relevante do período.

Pequenas cidades, vilas ou distritos, como no caso de Bonito, também almejaram tal cultura musical e poética, improvisando suas serenatas com seus próprios amadores. Os anos de 1920, primeiros momentos do desenvolvimento musical bonitense, iniciam então o estudo de leitura de uma partitura. Em 1921, chegava ao nosso Bonito o jovem maestro José Siqueira, oriundo da vizinha cidade de Conceição do Piancó, quando nessa ocasião fundou a primeira banda. Acredita-se que, a partir desta década, tivemos os primeiros grupos musicais organizados, primeiro a formação de uma filarmônica e, que dela haveria de surgir outros grupos, como orquestras e conjuntos musicais. Iniciava os bons tempos das serenatas à luz do luar sertanejo, momentos em que se reuniam seresteiros na principal rua do lugarejo, ou quando em noites nubladas e chuvosas, acontecia a luz dos lampiões a gás, que muitas vezes se dava nos recintos comerciais denominados de “bodegas”.

Poucos registros escritos sobre os seresteiros da época da "Rua Grande" ou "Rua da Igreja" foram encontrados. No entanto, existem muitos relatos orais de músicos, cantores, boêmios e pessoas da comunidade que vivenciaram as serenatas na rua principal de Bonito. Em relação aos registros sobre os seresteiros, encontramos algumas menções no livro "Memórias"(1) (PALITOT, p. 165), referindo-se ao ano de 1929, quando alguns moradores participaram da organização de festas e serenatas. José Ferreira Caju, Luiz Maia, Laurindo Timóteo de Sousa e Cesário Pereira estavam entre eles. Outros cidadãos mencionam na lista o Maestro Severino Soares, o Professor Mozart Rodrigues, Antônio Pereira da Silva e Antônio Timóteo de Sousa. 

 

Os assuntos acima abordados refletem nosso convívio social e, na maioria das opiniões populares, indicam Antônio Timóteo de Sousa (1885-1973) como um dos frequentadores assíduos das serenatas em Bonito. Reconhecido como um importante modista em nossa cultura musical, ele foi um homem simples, do meio agropecuário, comerciante e boêmio, sendo um notável guardião da poesia e das belas canções do passado.

 

O boêmio Antônio Timóteo habituou-se às antigas canções, valorizando sempre as de caráter poético e sentimental, conforme comenta a sua filha Plácida Timóteo de Sousa: “meu pai gostava de cantar modinhas, toadas, canções de estilo mais sertanejo e exaltava, também, as mais sentimentais do gênero samba-canção”(2).

Segundo Plácida e alguns músicos de Bonito, uma das canções favoritas do boêmio era a modinha “Quem sabe?” (Francisco Leite de Bittencourt Sampaio - Antônio Carlos Gomes), também gostava de cantar outras lindas músicas como: “Menina faceira”, 1859 (Chiquinha Gonzaga); “A casinha pequenina”, 1906  (possivelmente dos compositores Leopoldo Fróes, Pedro Augusto e Bernardino Belém); “O trenzinho do caipira”, 1930 (Heitor Villa-Lobos – Ferreira Gullar); “Mágoas de caboclo”, 1936 (J. Cascata – Leonel Azevedo); “Serra da Boa Esperança”, 1937 (Lamartine Babo); “No Rancho Fundo”, 1939 (Ary Barroso – Lamartine Babo); “Sertaneja” (René Bittencourt), 1940, gravada por Orlando Silva; “Senhor da floresta”, 1945 (Augusto Calheiro); “Porta aberta”, 1946 (Vicente Celestino); “O ébrio”, gravada por Vicente Celestino, entre outras...                                                                                              

Anos depois, a persistência dos poetas bonitenses continuou levando os músicos (instrumentistas de violão, viola, banjo, acordeom e clarinete) e cantores da noite, os trovadores, a se juntarem a eles nas encantadoras serenatas da cidade. Dessa forma, seria viável divulgar suas obras (poética e cancioneiro), tanto as deles quanto as de outros renomados brasileiros. O clima agradável da noite complementava a animação desses encontros, quando os seresteiros aproveitavam o momento das “Brisas do Aracati” – ventos que costumam aparecer à noite em Bonito – para se entregarem à boemia. A cidade ainda não contava com energia elétrica até o final da década de 1960. Ainda assim, eles   aproveitavam as noites de lua cheia para cantar e recitar poesias, saboreando uma cachaça artesanal produzida nos próprios engenhos locais.                                                               
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Afeto de um garoto com um velho seresteiro 

No final da década de 1920 e início dos anos de 1930, um rapazola entre 14 e 15 anos, conhecido por Epitácio Soares, vivia os momentos de serenatas em Bonito de Santa Fé. Era um dos apreciadores daquelas noites animadas no pequeno distrito sertanejo, acabou por ganhar a simpatia do velho boêmio Antônio Timóteo, de quem se tornou grande amigo. Tempos depois, Epitácio Soares foi residir na cidade de Campina Grande-PB e, como jornalista, trabalhava na imprensa local.

A morte de Antônio Timóteo ocorreu em 23 de novembro de 1973. O Sr. Epitácio Soares havia sido surpreendido pelos Correios com um telegrama enviado pelo Dr. Sinval Timóteo de Morais, que anunciava a triste notícia. Imediatamente, tratou ele de publicar, numa das páginas do jornal, uma especial homenagem ao amigo seresteiro, com o título: “Morte Romântica de um Boêmio”(3), que descrevemos como primeira estrofe a mensagem a seguir:

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Os boêmios não morrem como as pessoas comuns. Se viveram uma vida diferente, têm de morrer também de forma diferente. Uns morrem cantando, como certas aves morrem voando. A morte para eles não é o fim da boemia. No céu, vão continuar as suas serestas pelas alamedas do espaço, sob a luz dos refletores celestes. Lá, encontrarão os velhos companheiros que os antecederam na viagem, para os cantores saudosos da boemia terrestre. Assim deve ter acontecido a Antônio Timóteo, velho boêmio de Bonito de Santa Fé... (Epitácio Soares, C. Grande, 1973).

No artigo intitulado "Uma eterna Aprendiz", de Neide Medeiros Santos(4), são mencionadas passagens sobre o jornalista e cronista Epitácio Soares, do Diário da Borborema, de Campina Grande. Esse jornalista passou partes de sua infância e juventude na cidade de Bonito de Santa Fé, localizada no Alto Sertão da Paraíba, onde fez amizade com membros de famílias como Timóteo de Sousa, Morais, Amorim, Palitot, Gonçalves Lima, entre outras. Segundo Neide Santos, vamos verificar um pouco da trajetória desse jornalista, que relata o seguinte:

O ritual que rege as solenidades de posse dos acadêmicos exige uma palavra de saudação aos que nos antecederam, é o que farei a partir de agora, começando pelo patrono da cadeira 21, Maximiano Lopes Machado, seguindo-se José Lopes de Andrade, Epitácio Soares e o último, Flávio Sátiro Fernandes.

[...] Epitácio Soares foi sucessor de José Lopes de Andrade e se destacou no jornalismo campinense. Nasceu em 1 de janeiro de 1915 em São Boa Ventura, Vale do Piancó, na Paraíba, à época distrito do município de Misericórdia (atualmente Itaporanga). Estudou em Bonito de Santa Fé com os professores Andrelino Timóteo e Lauro Lima. Foi um autodidata e confessou em uma de suas crônicas publicada no Diário da Borborema: “Devo ao que aprendi em Bonito, com os professores Andrelino Timóteo e Lauro Gonçalves Lima, isso que sou até hoje. Um rabiscador de jornais, sem outras ambições mais altas do que a de ser tolerado pelos meus leitores campinenses (Bonito, 30.01.75(5))”.

Já morando em Patos, estudou português com o professor Anésio Leão. O reverendo Cláudio Luiz Santiago foi responsável pela indicação de leituras mais sérias. A respeito desse aprendizado, confessa que foi com o pastor evangélico que despertou para as belas-artes e aprendeu a gostar de clássicos.

Ao se transferir para Campina Grande, dedicou-se ao jornalismo e passou a colaborar para os jornais O Rebate, A Voz da Borborema e Diário da Borborema, neste último, escreveu durante 30 anos. No Diário da Borborema, foi repórter, editorialista, noticiarista, comentarista, colunista diário, redator e secretário.

Atuou também na Rádio Borborema, sendo idealizador e fundador do programa A Voz dos Municípios, com alto índice de audiência em todo o Estado da Paraíba. Realizou, em Campina Grande, o I Congresso Paraibano de Municípios. Era assíduo frequentador da Livraria Pedrosa e desfrutava da amizade com os professores universitários. Muitas vezes acompanhava os escritores que visitavam Campina Grande, bom conhecedor que era de todos os redutos daquela urbe. Epitácio Soares faleceu em 12 de abril de 1988. É um marco do jornalismo paraibano. (SANTOS, p. 5, 2023, com grifos nossos).

Várias pessoas, como Epitácio Soares, visitaram Bonito de Santa Fé e muitas delas acabaram ficando para sempre no lugar, constituíram famílias e ajudaram a construir sua história. Outras foram embora, mas nunca se esqueceram desse lugar aconchegante, cheio de encantos e boemia. Bonito de Santa Fé sempre foi reconhecida como cidade hospitaleira, acolhendo sempre os que respeitam nossa gente, como assim diz o hino: “Sendo amigos, são tratados como irmãos". A sua característica vem também como tradição na música, levou vários poetas e musicistas para grandes centros do país, que muitas vezes foram reconhecidos como autênticos profissionais compositores.

Se o desejo por um lugar privilegiado na sociedade ainda não tivesse se concretizado nas décadas passadas, se as ruas e praças ainda não tivessem sido tomadas pelos boêmios, habitantes acastelados e a indiferença de alguns, mesmo assim ruiriam seus muros abalados, seguiam adiante os menestréis da noite. Houve cânticos ao redor, ao som de instrumentos harmônicos e muita poesia. Nós, os apreciadores dessas manifestações artísticas, vislumbramos, em nossa imaginação, não muito distante, a cidade perfeita dos nossos sonhos.                                   


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Notas e Referências:

(1) PALITOT, Idália Leite. Memórias: A mulher mais feliz do mundo. João Pessoa: A União Editora, 1985. O livro apresenta artigos a respeito dos seresteiros de Bonito e suas serenatas do passado. (2) Plácida revela a maneira de o pai apreciar as velhas canções nas serenatas bonitenses, consultada em 2018; outras informações sobre o Sr. Antônio Timóteo vêm dos músicos José Luís Furtado, 2005; Antônio Paulino, Manoel Itamar Pereira e José Teodósio da Silva (Zé de Jorja), 2020; Prof. Luiz Carlos Timóteo Araruna (neto do Sr. Antônio Timóteo), 2020. (3) O que está escrito sobre o Sr. Antônio Timóteo de Sousa é núcleo de uma matéria de jornal da lavra do Sr. Epitácio Soares (colunista do jornal campinense Diário da Borborema, 1973), e da memória de Plácida Timóteo de Sousa, – guarda até hoje os escritos do jornal. (4) SANTOS, Neide Medeiros. Uma Eterna Aprendiz - Biografia; https://pt.scribd.com/document/740728885/Uma-eterna-aprendiz, 2023 – acesso ao artigo em 2025; (5) Epitácio Soares redigiu provavelmente o texto em Bonito de Santa Fé, conforme está registrado o ano e o local citado: Bonito, 30.01.1975. Talvez em algum momento tenha retornado para rever seus velhos amigos e, depois, publicado no jornal onde atuava.

(*) Melhores detalhes sobre o assunto encontram-se na obra História da Cultura Musical de Bonito de Santa Fé, do autor deste artigo, que será publicada em breve.

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