MÚSICA E POESIA

Bonito de Santa Fé, um recanto de poetas e boemia.

 

Por José Jansen Furtado*.

Ilustração: Francisco Furtado.

Imagem criada com IA - ChatGPT
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A música brasileira na virada do século XX se destacava pela disseminação de estilos como o choro, o samba e a marcha, além da relevância das partituras para piano e das bandas de música como formas de difusão, enquanto os discos e o rádio começavam a se popularizar. Figuras como Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth desempenharam papéis importantes nessa fase de grande agitação cultural. Ainda persistia um gênero musical popular-urbano que se originou no Brasil e em Portugal durante o século XVIII. Era uma canção de salão, inicialmente influenciada pela ária operística italiana e pela modinha portuguesa. No entanto, no Brasil, adquiriu características próprias, frequentemente incorporando letras de poetas da Arcádia e sendo acompanhada, geralmente, por cravo ou violão. A modinha combinou elementos eruditos e populares, transformando-se em uma expressão musical relevante do período.

Pequenas cidades, vilas ou distritos, como no caso de Bonito, também almejaram tal cultura musical e poética, improvisando suas serenatas com seus próprios amadores. Os anos de 1920, primeiros momentos do desenvolvimento musical bonitense, iniciam então o estudo de leitura de uma partitura. Em 1921, chegava ao nosso Bonito o jovem maestro José Siqueira, oriundo da vizinha cidade de Conceição do Piancó, quando nessa ocasião fundou a primeira banda. Acredita-se que, a partir desta década, tivemos os primeiros grupos musicais organizados, primeiro a formação de uma filarmônica e, que dela haveria de surgir outros grupos, como orquestras e conjuntos musicais. Iniciava os bons tempos das serenatas à luz do luar sertanejo, momentos em que se reuniam seresteiros na principal rua do lugarejo, ou quando em noites nubladas e chuvosas, acontecia a luz dos lampiões a gás, que muitas vezes se dava nos recintos comerciais denominados de “bodegas”.

Poucos registros escritos sobre os seresteiros da época da "Rua Grande" ou "Rua da Igreja" foram encontrados. No entanto, existem muitos relatos orais de músicos, cantores, boêmios e pessoas da comunidade que vivenciaram as serenatas na rua principal de Bonito. Em relação aos registros sobre os seresteiros, encontramos algumas menções no livro "Memórias"(1) (PALITOT, p. 165), referindo-se ao ano de 1929, quando alguns moradores participaram da organização de festas e serenatas. José Ferreira Caju, Luiz Maia, Laurindo Timóteo de Sousa e Cesário Pereira estavam entre eles. Outros cidadãos mencionam na lista o Maestro Severino Soares, o Professor Mozart Rodrigues, Antônio Pereira da Silva e Antônio Timóteo de Sousa. 

 

Os assuntos acima abordados refletem nosso convívio social e, na maioria das opiniões populares, indicam Antônio Timóteo de Sousa (1885-1973) como um dos frequentadores assíduos das serenatas em Bonito. Reconhecido como um importante modista em nossa cultura musical, ele foi um homem simples, do meio agropecuário, comerciante e boêmio, sendo um notável guardião da poesia e das belas canções do passado.

 

O boêmio Antônio Timóteo habituou-se às antigas canções, valorizando sempre as de caráter poético e sentimental, conforme comenta a sua filha Plácida Timóteo de Sousa: “meu pai gostava de cantar modinhas, toadas, canções de estilo mais sertanejo e exaltava, também, as mais sentimentais do gênero samba-canção”(2).

Segundo Plácida e alguns músicos de Bonito, uma das canções favoritas do boêmio era a modinha “Quem sabe?” (Francisco Leite de Bittencourt Sampaio - Antônio Carlos Gomes), também gostava de cantar outras lindas músicas como: “Menina faceira”, 1859 (Chiquinha Gonzaga); “A casinha pequenina”, 1906  (possivelmente dos compositores Leopoldo Fróes, Pedro Augusto e Bernardino Belém); “O trenzinho do caipira”, 1930 (Heitor Villa-Lobos – Ferreira Gullar); “Mágoas de caboclo”, 1936 (J. Cascata – Leonel Azevedo); “Serra da Boa Esperança”, 1937 (Lamartine Babo); “No Rancho Fundo”, 1939 (Ary Barroso – Lamartine Babo); “Sertaneja” (René Bittencourt), 1940, gravada por Orlando Silva; “Senhor da floresta”, 1945 (Augusto Calheiro); “Porta aberta”, 1946 (Vicente Celestino); “O ébrio”, gravada por Vicente Celestino, entre outras...                                                                                              

Anos depois, a persistência dos poetas bonitenses continuou levando os músicos (instrumentistas de violão, viola, banjo, acordeom e clarinete) e cantores da noite, os trovadores, a se juntarem a eles nas encantadoras serenatas da cidade. Dessa forma, seria viável divulgar suas obras (poética e cancioneiro), tanto as deles quanto as de outros renomados brasileiros. O clima agradável da noite complementava a animação desses encontros, quando os seresteiros aproveitavam o momento das “Brisas do Aracati” – ventos que costumam aparecer à noite em Bonito – para se entregarem à boemia. A cidade ainda não contava com energia elétrica até o final da década de 1960. Ainda assim, eles   aproveitavam as noites de lua cheia para cantar e recitar poesias, saboreando uma cachaça artesanal produzida nos próprios engenhos locais.                                                               
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Afeto de um garoto com um velho seresteiro 

No final da década de 1920 e início dos anos de 1930, um rapazola entre 14 e 15 anos, conhecido por Epitácio Soares, vivia os momentos de serenatas em Bonito de Santa Fé. Era um dos apreciadores daquelas noites animadas no pequeno distrito sertanejo, acabou por ganhar a simpatia do velho boêmio Antônio Timóteo, de quem se tornou grande amigo. Tempos depois, Epitácio Soares foi residir na cidade de Campina Grande-PB e, como jornalista, trabalhava na imprensa local.

A morte de Antônio Timóteo ocorreu em 23 de novembro de 1973. O Sr. Epitácio Soares havia sido surpreendido pelos Correios com um telegrama enviado pelo Dr. Sinval Timóteo de Morais, que anunciava a triste notícia. Imediatamente, tratou ele de publicar, numa das páginas do jornal, uma especial homenagem ao amigo seresteiro, com o título: “Morte Romântica de um Boêmio”(3), que descrevemos como primeira estrofe a mensagem a seguir:

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Os boêmios não morrem como as pessoas comuns. Se viveram uma vida diferente, têm de morrer também de forma diferente. Uns morrem cantando, como certas aves morrem voando. A morte para eles não é o fim da boemia. No céu, vão continuar as suas serestas pelas alamedas do espaço, sob a luz dos refletores celestes. Lá, encontrarão os velhos companheiros que os antecederam na viagem, para os cantores saudosos da boemia terrestre. Assim deve ter acontecido a Antônio Timóteo, velho boêmio de Bonito de Santa Fé... (Epitácio Soares, C. Grande, 1973).

No artigo intitulado "Uma eterna Aprendiz", de Neide Medeiros Santos(4), são mencionadas passagens sobre o jornalista e cronista Epitácio Soares, do Diário da Borborema, de Campina Grande. Esse jornalista passou partes de sua infância e juventude na cidade de Bonito de Santa Fé, localizada no Alto Sertão da Paraíba, onde fez amizade com membros de famílias como Timóteo de Sousa, Morais, Amorim, Palitot, Gonçalves Lima, entre outras. Segundo Neide Santos, vamos verificar um pouco da trajetória desse jornalista, que relata o seguinte:

O ritual que rege as solenidades de posse dos acadêmicos exige uma palavra de saudação aos que nos antecederam, é o que farei a partir de agora, começando pelo patrono da cadeira 21, Maximiano Lopes Machado, seguindo-se José Lopes de Andrade, Epitácio Soares e o último, Flávio Sátiro Fernandes.

[...] Epitácio Soares foi sucessor de José Lopes de Andrade e se destacou no jornalismo campinense. Nasceu em 1 de janeiro de 1915 em São Boa Ventura, Vale do Piancó, na Paraíba, à época distrito do município de Misericórdia (atualmente Itaporanga). Estudou em Bonito de Santa Fé com os professores Andrelino Timóteo e Lauro Lima. Foi um autodidata e confessou em uma de suas crônicas publicada no Diário da Borborema: “Devo ao que aprendi em Bonito, com os professores Andrelino Timóteo e Lauro Gonçalves Lima, isso que sou até hoje. Um rabiscador de jornais, sem outras ambições mais altas do que a de ser tolerado pelos meus leitores campinenses (Bonito, 30.01.75(5))”.

Já morando em Patos, estudou português com o professor Anésio Leão. O reverendo Cláudio Luiz Santiago foi responsável pela indicação de leituras mais sérias. A respeito desse aprendizado, confessa que foi com o pastor evangélico que despertou para as belas-artes e aprendeu a gostar de clássicos.

Ao se transferir para Campina Grande, dedicou-se ao jornalismo e passou a colaborar para os jornais O Rebate, A Voz da Borborema e Diário da Borborema, neste último, escreveu durante 30 anos. No Diário da Borborema, foi repórter, editorialista, noticiarista, comentarista, colunista diário, redator e secretário.

Atuou também na Rádio Borborema, sendo idealizador e fundador do programa A Voz dos Municípios, com alto índice de audiência em todo o Estado da Paraíba. Realizou, em Campina Grande, o I Congresso Paraibano de Municípios. Era assíduo frequentador da Livraria Pedrosa e desfrutava da amizade com os professores universitários. Muitas vezes acompanhava os escritores que visitavam Campina Grande, bom conhecedor que era de todos os redutos daquela urbe. Epitácio Soares faleceu em 12 de abril de 1988. É um marco do jornalismo paraibano. (SANTOS, p. 5, 2023, com grifos nossos).

Várias pessoas, como Epitácio Soares, visitaram Bonito de Santa Fé e muitas delas acabaram ficando para sempre no lugar, constituíram famílias e ajudaram a construir sua história. Outras foram embora, mas nunca se esqueceram desse lugar aconchegante, cheio de encantos e boemia. Bonito de Santa Fé sempre foi reconhecida como cidade hospitaleira, acolhendo sempre os que respeitam nossa gente, como assim diz o hino: “Sendo amigos, são tratados como irmãos". A sua característica vem também como tradição na música, levou vários poetas e musicistas para grandes centros do país, que muitas vezes foram reconhecidos como autênticos profissionais compositores.

Se o desejo por um lugar privilegiado na sociedade ainda não tivesse se concretizado nas décadas passadas, se as ruas e praças ainda não tivessem sido tomadas pelos boêmios, habitantes acastelados e a indiferença de alguns, mesmo assim ruiriam seus muros abalados, seguiam adiante os menestréis da noite. Houve cânticos ao redor, ao som de instrumentos harmônicos e muita poesia. Nós, os apreciadores dessas manifestações artísticas, vislumbramos, em nossa imaginação, não muito distante, a cidade perfeita dos nossos sonhos.                                   


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Notas e Referências:

(1) PALITOT, Idália Leite. Memórias: A mulher mais feliz do mundo. João Pessoa: A União Editora, 1985. O livro apresenta artigos a respeito dos seresteiros de Bonito e suas serenatas do passado. (2) Plácida revela a maneira de o pai apreciar as velhas canções nas serenatas bonitenses, consultada em 2018; outras informações sobre o Sr. Antônio Timóteo vêm dos músicos José Luís Furtado, 2005; Antônio Paulino, Manoel Itamar Pereira e José Teodósio da Silva (Zé de Jorja), 2020; Prof. Luiz Carlos Timóteo Araruna (neto do Sr. Antônio Timóteo), 2020. (3) O que está escrito sobre o Sr. Antônio Timóteo de Sousa é núcleo de uma matéria de jornal da lavra do Sr. Epitácio Soares (colunista do jornal campinense Diário da Borborema, 1973), e da memória de Plácida Timóteo de Sousa, – guarda até hoje os escritos do jornal. (4) SANTOS, Neide Medeiros. Uma Eterna Aprendiz - Biografia; https://pt.scribd.com/document/740728885/Uma-eterna-aprendiz, 2023 – acesso ao artigo em 2025; (5) Epitácio Soares redigiu provavelmente o texto em Bonito de Santa Fé, conforme está registrado o ano e o local citado: Bonito, 30.01.1975. Talvez em algum momento tenha retornado para rever seus velhos amigos e, depois, publicado no jornal onde atuava.

(*) Melhores detalhes sobre o assunto encontram-se na obra História da Cultura Musical de Bonito de Santa Fé, do autor deste artigo, que será publicada em breve.

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