Resistência
Negra no Brasil Escravocrata
NO REINO DE NGOLA – A RAINHA DO MOCAMBO MATRIARCAL
Por José Jansen Furtado*.
Ilustração baseada em mocambo e quilombo.
Ilustração baseada em mocambo e quilombo. https://www.vestibulandoweb.com.br/historia/quilombo-dos-palmares/
Não existe um registro oficial que mostre a
origem de um mocambo na região amazônica. Pois eram diversas as constituições
éticas e sociais dos mocambos, sendo os mais comuns, na Amazônia, os de negros,
mestiços e índios. No entanto, é conhecido que, em um dos recantos da selva,
existiu um lendário mocambo comandado por mulheres que, com bravura, resistiram
por vários anos à perseguição do sistema escravocrata no Brasil. Era o mocambo
guiado pela rainha Ngola.
Uma africana chamada Ngola foi rainha no século
XIX, em plena escravidão no Brasil. Assim como ela, outras escravas evadidas
das plantações de cana-de-açúcar ou fazendas de gado lideravam alguns quilombos
localizados no coração da floresta amazônica - os conhecidos mocambos. Não
existem pesquisas sobre o número de fugitivos (tanto homens quanto mulheres),
nem sobre onde estavam localizados. O que se sabe é que o poder das mulheres
vinha de um número diferente entre homens e mulheres. Havia uma mulher para dez
homens. Isso fazia com que as mulheres fossem muito mais valorizadas.
Construída no meio da floresta por escravos
fugitivos, os mocambos eram relativamente seguros. Os perseguidores de escravos dificilmente ousavam
adentrar na mata por causa da dificuldade de acesso e das doenças tropicais ali
existentes. A descrição mais precisa que se tem de um mocambo deve-se ao
francês Jean Jacques Berthier, que veio ao Brasil
exilado da Revolução Francesa (1789-1799).
Após a independência, Jean Berthier, evitando
os conflitos que devastaram o país, acabou em um desses mocambos matriarcais —
especificamente no da rainha Ngola — onde permaneceu de 1824 a 1825. A carta
que ele enviou ao irmão Guillaume, em Nantes, França, foi analisada pelo
historiador Décio Freitas para o livro A Miserável Revolução das Classes
Infames e mostra com riqueza de detalhes como era a vida nesse pedaço de
África em plena floresta amazônica.
Conforme pesquisas, examinemos outros fatos,
dessa vez por Ferreira, que também menciona a respeito da africana Ngola e seu
extraordinário mocambo:
Há informações de correspondências
escritas pelo francês Jean Jacques Berthier sobre a
existência de um mocambo distante cerca de 17 dias de viagem a partir de Belém,
liderado por uma negra conhecida como rainha Ngola. Após navegar por vários
dias, desembarca-se e caminha-se por várias horas na floresta, até que se
atinja o povoado do mocambo, já ao final da tarde.
O mocambo era formado por quatro
povoações menores, com cerca de 300 habitantes cada uma, mais o povoamento
principal que teria aproximadamente 700 pessoas. Se tomarmos mais informações
como indícios, o mocambo da rainha Ngola contava com uma povoação de mais ou
menos 1.900 integrantes, na sua maioria de negros, havendo também indígenas
Tapuios, estimativa significativa para tempos conturbados. Jean Berthier teria
sido informado de que o mocambo, que começara há uns cinquenta anos, era
governado por mulheres que reinavam vitaliciamente, mas a transmissão do poder
não era hereditária. A preta Ngola teria sido a terceira rainha do mocambo.
[...] Adentrando cada vez mais a mata,
negros, índios, desertores, fugitivos aglutinaram-se para construir o sonhado
espaço da liberdade, mesmo que mediatizada pela ordem escravagista, pelas suas
instituições e corpos de controle e repressão. A expressão “liberdade por um
fio” sugere essa relação liminar entre cativeiro e liberdade, face à
perseguição dos capitães do mato, à delação do quilombo, à recaptura.
(FERREIRA, 2010, p. 55 – 56, apud FREITAS, 2005, p. 69 – 75).
Ngola, a soberana do mocambo matriarcal,
exercia autoridade total na pequena comunidade onde habitavam aproximadamente 2
mil indivíduos. Ela, eleita por meio do sistema de braço levantado, era a
autoridade máxima daquele clã. Passava o dia em audiências com “os súditos”,
que a adoravam de joelhos. Quando ouvia deles algo que considerava errado,
punia-os com duas ou três bastonadas. Ngola também usava adornos feitos do ouro
abundante dos territórios de seu mocambo.
Com o ouro que extraíam no território, os
mocambeiros adquiriam armas dos holandeses na Guiana vizinha, que, em
contrapartida, consumia as ervas medicinais trazidas pelos africanos. Os
ex-escravos comercializavam também tabaco e mandioca com as comunidades ribeirinhas
e praticavam a pirataria: os soldados de Ngola atacavam canoas e barcos em rios
distantes, roubando os viajantes ou saqueando povoações de brancos.
No mocambo, as atividades eram
predominantemente realizadas pelos homens, que se organizavam em diferentes
funções. Suas principais ocupações diárias incluíam: agricultura, caça, pesca,
tecelagem, olaria e serralheria. O francês Jean Berthier os caracterizou como
fortes e ágeis, com o hábito de andar descalços. Outra responsabilidade dos
homens era transportar a esposa e os filhos nas costas, especialmente quando
eles não queriam andar.
Por outro lado, a única função das mulheres do
mocambo era supervisionar o trabalho dos maridos. Na verdade, elas podiam ter
até cinco companheiros, embora geralmente escolhessem um favorito para
supervisionar toda a família, que podia ter até 20 filhos. Para passar o tempo,
as mulheres se sentavam no chão para conversar, cantar e fumar tabaco.
Para ocorrer o casamento, era necessário que a
mulher aceitasse o homem. Antes de ser aprovado, ele passava por uma
convivência de alguns meses. Se aceito, tinha de pagar o dote exigido pela
noiva. Somente assim ela tornava público que aquele homem era seu esposo. A
mulher também tinha o poder de expulsar os maridos de casa quando desejasse e
ainda decidia com qual deles teria relações íntimas.
Festas eram comuns no mocambo. Elas duravam dias e noites, com muita música e dança. Ao som de marimbas e de um instrumento denominado “pungo”, contadores de histórias empolgavam os ouvintes. No entanto, as celebrações não eram exclusivamente religiosas – mesmo que os mocambeiros o fossem. Eles veneravam figuras que representavam tanto humanos quanto animais e realizavam sacrifícios com bichos. A cerimônia era realizada por um feiticeiro, que também era o curandeiro da tribo.
Imagem de um mocambo no
Brasil do século XIX.
https://www.historiadaditadura.com.br/post/mocambosequilombosoprotestonegronobrasil
A mata e os rios eram desafiadores para esse
povo destemido, porém, não tinham escolha, enfrentavam doenças provocadas por
diversificados tipos de insetos, perigosos ataques de animais selvagens e de
indígenas, mas era ali o começo de sua liberdade. Naquele amaranhado local de
selvas, os homens podiam abrir roças, caçar e pescar, enquanto as mulheres
ficavam com a missão de cozinhar, criar os filhos, ajudar a fabricar a farinha
e outras atividades como as danças e cânticos que animavam a tribo em dia de
festa, representavam assim os espaços sociais do mocambo. A vigilância e o
controle do povoado eram desafiados constantemente, pois, para o quilombola,
isso significava a possibilidade de viver livres e lutar contra as rédeas de
uma sociedade exploradora que se dava naquele injustiçado tempo de um Brasil
escravocrata.
https://doisvizinhos.pr.gov.br/site/conteudo/430901049-dia-da-consciencia-negra.html
Revista Aventuras na História (“No mocambo matriarcal”, p. 8 – 9), São Paulo: Editora Abril, Edição 34, junho - 2006);
FERREIRA, Eliana Ramos. Guerra sem fim: Mulheres na trilha do direito à terra e ao destino dos filhos (PARÁ-1835-1860). Programa de Estudos Pós-Graduados em História – Doutorado em História, PUC - SP, 2010; https://pt.scribd.com/document/359360806/Eliana-Ramos-Ferreira-Tese#content=query:ngola,pageNum:57,indexOnPage:0,bestMatch:false.
FREITAS, Décio. A Miserável Revolução das Classes Infames. Rio de Janeiro: Record, 2005.
De acordo com o historiador Décio de Freitas, não só os fugitivos amocambados eram negros, mas também mestiços e tapuios. Além disso, Décio afirma que o francês Jean Jacques Berthier, ao partir, não compartilhou com ninguém a localização do mocambo, conforme combinado com a rainha Ngola.
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(*) Textos adaptados pelo autor, 20 de novembro de 2025, dia da Consciência Negra



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