HISTÓRIA E CINEMA
Piratas e Corsários: Aventuras e Lutas no Mar do Caribe
Por José
Jansen Furtado*
Ilustração e
montagem: Francisco Furtado
Arquivo do Blog**
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Um navio, sob a bandeira dos piratas, com as duas tíbias, os ossos tradicionais cruzados embaixo de um crânio (caveira) humano. Havia riscos, porém, eles se desvinculavam de qualquer temor para viver plenamente, enfrentavam qualquer perigo. O destino era incerto, a aventura era o mar aberto sem limite de navegar, ou direito a voltar, esses eram alguns dos seus audaciosos desafios.
Ultrajados com a sociedade, eles enfrentavam os mares e oceanos por si próprios e só se associavam com seus irmãos da costa, que muitas vezes se comunicavam por gestos de sopapos e pontapés, ocorridos nas tabernas dos portos clandestinos ao longo do mar do Caribe. Seus principais costumes no cotidiano, - após um rico butim que roubavam dos navios mercantes – eram desfrutar-se, sem limite, de bebidas como rum e acompanhados de garotas (concubinas da vida) nas rápidas passagens nesses lugares de diversão. E se por acaso alguma mulher quisesse viver a aventura com esses marujos desonestos, elas que se transvestissem de homem para se misturar à tripulação – semelhante a Anne Bonny e Mary Read, lendárias piratas do Caribe no século XVIII.
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A imaginação e a criatividade dos escritores de livros e roteiristas de filmes contribuíram bastante com as fascinantes aventuras desses indivíduos piratas – no cinema, “Piratas” de Roman Polanski, na literatura “A Ilha do Tesouro” de Robert Louis Stevenson. Chapéu tricórnio ("chapéu de três bicos"), roupão colorido, brincos nas orelhas, cabeça coberta com um lenço, um tapa-olho, papagaio no ombro, tatuagens nos braços, um cinturão portando uma pistola (flintlock) ou como as nossas “garruchas”, um punhal pontiagudo e uma espada afiada: o pirata sempre se destaca como um homem livre e destemido, desafiador da lei e das obrigações da sociedade. Frequentes escritos na leitura ou em cenas de filmes, se vê um homem adentrar um navio com uma perna normal e a outra de madeira - e que sempre dizem, “cortada pelo inimigo ou devorada por um tubarão” – para abordar novos horizontes, regiões que esplandece uma natureza intacta, ar puro, cenários de relevantes belezas que associam aos sonhos e fantasias fantásticas, como ainda povoadas por animais selvagens, plantas exóticas e indígenas canibais. O personagem típico do pirata rebelde inspirou a criação de muitas histórias para a literatura, que acabou enriquecendo o cinema mundial.
A "Era de Ouro da Pirataria" é geralmente considerada o período de 1689 a 1718 na América. Com o crescimento da navegação pelo Atlântico e Caribe, piratas bem-sucedidos, muitos dos quais iniciaram suas carreiras como corsários, tiveram a oportunidade de atacar embarcações carregadas de ouro, prata e outros utensílios valiosos para ganhar a vida. Conforme suas riquezas prosperavam e sua busca por tesouros aumentava, os alvos de pilhagem logo deixaram de ser apenas pequenos navios mercantes. Os piratas atacavam grandes comboios, conseguiam repelir navios de guerra de grande porte e se tornaram uma força a ser considerada. Assim, a violência era o destino diário daquela gente do mar.
A solidariedade era quase inexistente entre esses ambiciosos. Eles estabeleciam um tipo de pacto entre as “irmandades”, mas apenas quando lhes era conveniente. Geralmente, trocavam o “capitão” ou outro prisioneiro importante por uma parte dos lucros em valiosas quantidades de moedas, ou até mesmo por um mapa que indicava o esconderijo de uma grande fortuna.
Piratas X Corsários
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Os corsários atuavam com a autorização e em nome de um governo específico, transformando suas ações em uma guerra naval aprovada pelo Estado, em vez de um crime comum. Os saques eram geralmente compartilhados com a Coroa, o que transformava essa prática em uma estratégia rentável e em um instrumento político significativo, particularmente para a Inglaterra, no enfrentamento de potências como a Espanha.
Os ingleses sentiam-se ameaçados pela Invencível Armada espanhola, montada graças ao ouro saqueado das Américas. Em 1567, com suas naus equipadas com o que havia de mais moderno em matéria de armas de fogo, a Espanha acabou por bloquear o tráfego comercial marítimo entre as Ilhas Britânicas e os Países Baixos. Para dar o troco aos espanhóis, a Inglaterra criou e manteve durante vinte anos uma verdadeira frota mercenária: os corsários, navegadores aos quais outorgavam cartas de corso (do latim cursus, viagem ao mar para caçar os navios mercantes de nações inimigas para saquear). Tratava-se, na verdade, de autorizações para roubar: as cartas permitiam que eles abordassem os galeões espanhóis que traziam para a Europa as riquezas das colônias do Novo Mundo.
O ambiente era o mar das Antilhas, na região da América Central. A vantagem para os britânicos era que as frotas que transportavam os tesouros espanhóis tinham horários fixados para sair e rotas específicas, facilitando a atuação dos piratas. No entanto, os defensores eram agressivos, uma vez que os comboios sempre recebiam escoltas fortemente armadas. O financiamento que a Inglaterra destinava à pirataria garantia retornos positivos. Apesar dos altos custos, o lucro obtido com os saques valia a pena. De fato, a Inglaterra não era o único país cujo comércio internacional sentia os efeitos da presença espanhola nas águas – e por isso apelava para os corsários. A França, por exemplo, também utilizava essa estratégia. Os espanhóis, decididos a defender o seu território no Caribe, atacava-os frequentemente, por meio de patrulhas marítimas e invasões aos assentamentos britânicos. Os confrontos entre ambos, tanto dos navios quanto nos acampamentos, foram extremamente brutais, usavam de seus poderes bélicos e tornavam os ambientes das batalhas num “mar de sangue”.
Os piratas eram diferentes dos corsários. Derivado do grego peiratēs, que significa bandido, refere-se a uma variedade de ações ilícitas no âmbito náutico, como ataques à costa e abordagens de embarcações em alto-mar. Roubo, sequestro e assassinato são considerados atividades piratas, desconsiderando acordos, leis ou imposições das monarquias e impérios.
A tática do pirata do mar das Antilhas
consistia em uma única palavra: abordagem. O êxito dependia da determinação, ou
melhor, da temeridade dos homens do navio. Numerosos, eles manejavam o sabre de
abordagem e o punhal. Combatiam aos pares, porque sempre se juntavam em duplas
e se chamavam, um ao outro, de matelot (marujo em francês). Após um
roubo bem-sucedido, esses homens sem família celebravam, se embriagando
livremente com rum da Jamaica e compartilhando amistosamente as mulheres que
haviam capturado.
O pirata era um indivíduo malévolo, um criminoso, um marginal ligado por motivos pouco revelados a outros delinquentes - indisciplina, deserção, motim, delito e homicídio. O pirata, em qualquer época, sempre teve a fama de ser um bandido muito ganancioso em suas ações para conseguir tesouros. Ele atacava um navio no mar, se possível ricamente carregado, que pilhava após eliminar a tripulação, vencida pela abordagem e morta, porque, para eles, não existia forte ou quartel fixo onde serviria de cárcere, não aceitavam prisioneiros, coisa que ocorria com os seus algozes civilizados.
Para completar, os piratas desembarcavam em qualquer ilha que já era ocupada por mestiços ou homens degredados, um lugar sem leis ou domínio, no caso da Ilha de Tortuga (Île de la Tortue), perto do Haiti, que era um famoso esconderijo e centro de piratas e bucaneiros no século XVII, servindo como base para atacar navios espanhóis e negociar bens roubados, aproveitavam o curto tempo de passagem para suas bebedeiras. Se por acaso o local fosse uma colônia dominada e regularizada por uma nação - geralmente europeia - eles invadiam para saquear, transformando o lugarejo num inferno de fogo e destruição, imagem típica dos antigos bárbaros.
Inicialmente, os piratas identificavam o ambiente onde pisavam, especialmente na costa de uma ilha ou estreito, seus lugares favoritos em uma rota marítima frequentemente navegada. Ali precisavam do local como base logística – água potável, víveres (frutas, peixes, pássaros e até animais selvagens), madeira para lenha e consertos da embarcação. Em alguma ilha menos frequentada, aproveitavam para esconder alguma parte de seus tesouros. Também era local de planejamento de seus assaltos aos navios, as vezes procuravam uma caverna para passar a noite, assim podiam acender suas fogueiras sem despertar o inimigo.
Tragédia no Atlântico
Havia também os imprevistos, como o perigo dos naufrágios. Segundo a revista Aventuras na História, explica um desses episódios no tempo do tráfego de minérios da América para a Europa:
[...] A derrota para os ingleses ficou a expansão do Império Espanhol, mas não o impediu de continuar explorando suas colônias na América. Galeões voltaram para a Espanha cheios de prata, ouro, pedras preciosas e produtos agrícolas. Normalmente, viajavam em comboio por questão de segurança. Em 4 de setembro de 1622, junto a outros 22 barcos, o Nossa Senhora de Atocha zarpou de Havana (atual capital de Cuba) com a missão de proteger a retaguarda da frota.
Após a partida, o clima começou a piorar. O mar ficou revolto e, no dia seguinte, o Atocha e outras quatro embarcações entraram numa grande tempestade. Era um furacão. Com as velas danificadas e os mastros partidos, o galeão já não podia manobrar. Em 6 de setembro, foi lançado contra recifes e afundou rapidamente. Das 265 pessoas a bordo, apenas cinco se salvaram.
A carga submersa ficou conhecida como o
Tesouro das Américas: incluía 24 toneladas de prata e 125 barras de ouro. Os
esforços para encontrar o Atocha só cessaram em 1985, quando a equipe da
Treasure Salvors, empresa americana especializada em buscas submarinas, o
localizou no sul da Flórida, recuperando parte do tesouro. (Aventuras na
História, 2006, pp. 45 – 46).
Batalha Naval no Brasil
Piratas e corsários atacaram a costa brasileira desde o início da colonização, com o objetivo de roubar riquezas como pau-brasil, açúcar e ouro. Os franceses, ingleses e holandeses, sendo os mais frequentes, utilizam lugares como Ilhabela e Rio de Janeiro como bases e alvos.
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Para afastá-los do Brasil e impedir que tomassem a terra, a coroa portuguesa enviou várias expedições guarda-costas. Em 1516, liderada por Cristóvão Jacques, no comando de duas caravelas, recebeu a missão de patrulhar a costa brasileira, com o intuito de desencorajar as investidas de corsários franceses. A 21 de julho de 1521, partiu novamente da foz do rio Tejo com destino ao Brasil, estabelecendo em Pernambuco a Feitoria de Itamaracá, em um dos portos mais conhecidos do litoral brasileiro, onde havia abundância de pau-brasil e frequentes interações entre indígenas e europeus, antes de continuar para o Sul até o rio da Prata.
Entre elas, destacaram-se as expedições de 1526 e 1527. Cristóvão Jacques, tendo retornado mais uma vez no comando de um navio grande e cinco caravelas, enfrentou muitos combates com corsários franceses. Em 1527, capturou três galeões franceses no Recôncavo da Bahia, fazendo 300 prisioneiros, levados para a Feitoria de Pernambuco. Apesar da brutalidade com a qual lidava com os piratas e corsários, decapitando-os ou torturando-os, a expedição de Cristóvão Jacques não teve sucesso, a costa brasileira era muito longa e dificultava a patrulha.
Piratas e corsários que atuaram no mar do Caribe durante a “Era de Ouro da Pirataria”
Edward Teach (também conhecido como "Thatch") nasceu na cidade portuária inglesa de Bristol por volta de 1680. Embora não se saiba ao certo quando Teach chegou ao Caribe, é provável que tenha desembarcado como marinheiro em navios corsários durante a Guerra da Sucessão Espanhola, na virada do século XVIII.
Teach pode ter permanecido como corsário durante o conflito, mas antes disso, ele se juntou à chalupa do pirata Benjamin Hornigold, que também atacava na costa jamaicana. A principal diferença agora era que Teach estava assaltando e eliminando seus antigos patrões, os britânicos. Teach certamente estabeleceu sua reputação. Sua determinação feroz e coragem incomparável o impulsionaram a uma rápida ascensão na hierarquia até alcançar a mesma fama de Hornigold. Enquanto seu mentor aceitou uma proposta de perdão do governo britânico, Barba Negra decidiu continuar no Caribe, comandando um navio que havia capturado e renomeado de Vingança da Rainha Ana.
Barba Negra tornou-se o pirata mais famoso e temido do Caribe. Segundo as lendas, ele era um gigante com uma barba escura que cobria metade do rosto, vestindo um grande casaco vermelho para parecer ainda maior. Carregava duas espadas na cintura e bandoleiras repletas de pistolas e facas cruzadas no peito.
Alguns relatos chegam a dizer que, durante uma briga, ele enfiou bastões de pólvora em seus longos cabelos para aumentar ainda mais seu aspecto aterrorizante. Provavelmente nunca saberemos exatamente qual era sua aparência, mas não há dúvida de que ele foi bem-sucedido, já que pesquisas recentes descobriram que ele capturou mais de 45 embarcações, apesar de sua carreira relativamente curta como pirata. Em 22 de novembro de 1718, com uma enorme recompensa por sua cabeça, Barba Negra foi finalmente morto em um duelo de espadas com fuzileiros navais reais no convés de seu navio. Como um poderoso símbolo para qualquer um que ousasse seguir seus passos, a cabeça decepada de Barba Negra foi levada ao governador da Virgínia.
Outros destemidos corsários e piratas: Francis Drake, Benjamin Hornigold, Charles Vane, Jack Rackham (“Calico Jack”), Anne Bonny, Maria Read, Jean Bart, William Kidd (“Capitão Kidd”), Robert Surcouf, e Bartholomew Roberts (“Black Bart”).
Na verdade, todas essas ações de combate que ocorriam nas Américas eram de forma ilícita, tanto do lado dos piratas quanto dos corsários. Pilhagens ocorriam constantemente, extorsões, ameaças, roubos, assassinatos, sequestros, delitos de várias formas, sem falar de uma crueldade sem limites, por conta própria, ou em nome de Sua Majestade. Os piratas e corsários tocavam horror em qualquer parte dos mares e oceanos. Suas cobiças em conseguir tesouros causaram impactos monstruosos em todos os tempos da história, e ainda é fato relevante na atualidade.
Conheça mais:
Clássicos e Aventuras Pirata na Tela do Cinema. Os principais filmes de piratas incluem a famosa série "Piratas do Caribe" (com Jack Sparrow), clássicos como "O Cisne Negro" e "Capitão Blood", adaptações de "A Ilha do Tesouro", e escolhas mais atuais como "Mestre dos Mares", além de animações como "Planeta do Tesouro" e "Piratas! - A Vingança de Barbossa", abrangendo desde fantasia e aventura até dramas baseados em histórias reais como "Capitão Phillips".
"O Gavião do Mar" (The Sea Hawk, 1940): Clássico de Errol Flynn; "O Cisne Negro" (The Black Swan, 1942): Um clássico com Tyrone Power, famoso pela aventura e romance; "Simbad - O Marujo" (The 7th Voyage of Sinbad, 1947): Aventura incrível com efeitos clássicos. E ainda, "O Trapalhão na Ilha do Tesouro", um filme brasileiro de 1974, dos gêneros aventura e comédia, dirigido por J.B. Tanko; "Hook - A Volta do Capitão Gancho" (Hook, 1991): Steven Spielberg reinterpretando Peter Pan com piratas; "A Ilha da Garganta Cortada" (Cutthroat Island), 1995, dirigido por Renny Harlin e escrito por Robert King e Marc Norman; entre outros desenhos animados como "O Marinheiro Popeye" (Popeye the Sailor), 1929/1933; "As Aventuras de Sinbad Júnior" (Sinbad Jr. and his Magic Belt), 1965; "Os Piratas de Águas Sombrias" (The Pirates of Dark Water), anos 1991 e 1993; e "Jake e os Piratas da Terra do Nunca", da Disney dos últimos tempos.
Principais livros de aventura pirata que expandiram no mundo da leitura: “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson; “Mestre dos Mares”, de Patrick O’Brian; “Uma História dos Piratas”, de Alinf Galeote; “Piratas: Uma História Secreta", de Fernando Moretti; “Contos de Piratas”, de Arthur Conan Doyle; “Os Piratas Fantasmas”, de Willian Hope Hodgson; "Piratas no Brasil: As incríveis histórias dos ladrões dos mares que pilharam nosso litoral", por Jean Marcel Carvalho França e Sheila Hue.
https://tokdehistoria.com.br/o-navio-pirata-brasileiro/
Notas
e Referências:
Revista: História Viva (“Piratas e Corsários”, páginas: 30 a 49), São Paulo: Duetto Editora, Ano I, nº 3, janeiro de 2004; Revista: Aventuras na História (“Passado submerso”, páginas: 42 a 47), São Paulo: Editora Abril, Edição 40, dezembro de 2006.
Almanaque Abril: A Enciclopédia da Atualidade. Editora Abril, 2003; na internet: HistoryHit: https://www.historyhit.com/famous-pirates-of-the-golden-age-of-piracy/; https://super.abril.com.br/historia/no-tempo-dos-corsarios-e-piratas/; https://www.google.com/; https://pt.wikipedia.org/wiki/Cutthroat_Island.
(*) Textos adaptados pelo autor baseados em
vários artigos sobre piratas e corsários.
(**) Há vários artigos na redação do blog para serem publicados em breve.




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