ARTE E CULTURA

UM JOVEM MÚSICO NO TEMPO DA VELHA GUARDA

 

Por José Jansen Furtado*.      

 


  

“[...] Pixinguinha, o virtuosismo de suas execuções na flauta e seus contrapontos no saxofone, somos envolvidos por uma atmosfera de privilegiado saber... e obras de um artista que reforça o orgulho de sermos brasileiros”.

                                     Alfredo da Rocha Vianna Neto.

 


https://www.instagram.com/pixinguinha/

Pixinguinha, por sua passagem pela música popular brasileira, foi tão longa quanto marcante. O artista é apontado pela maioria dos musicólogos do país como o nome mais importante de sua época. Como compositor, instrumentista, arranjador e regente, mergulhou profundamente no estudo de nossa música popular e tornou-se ícone do gênero que mais apreciava – o choro. Ao tempo em que criava suas obras, parecia nunca se esgotar. Esse artista genial inventou também uma linguagem musical apreciada não somente no Brasil, mas no mundo inteiro. Construiu suas obras e alicerçou uma cultura que permaneceu para sempre.

Seu primeiro destaque como executor de instrumento musical foi com a flauta transversal, depois com o saxofone. Jamais existiu no Brasil um instrumentista com tamanha habilidade criativa e interpretativa. Em matéria de solista, foi expressamente perfeito em sua grandiosidade, exatamente como podemos evidenciar como um verdadeiro flautista. Depois, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone, aparentemente houve insatisfação dos seus apreciadores ouvintes, uma espécie de tristeza nacional. Porém, em pouquíssimo tempo, o saxofonista soube lidar com o novo instrumento, o que foi aceito imediatamente por sua permanente modernidade. Por meio do saxofone, descobriu contrapontos inéditos para a música brasileira, isto lhe causou uma de suas mais perfeitas características.

 

 

Pixinguinha, juntamente com Ary Barroso e Dorival Caymmi, compõe o trio notável que nos cativou e expressou com autenticidade a música urbana e rural do povo brasileiro. A personalidade e a obra dele merecem um capítulo exclusivo na história. (o autor - baseado em análises de musicólogos do Brasil).                                                               

                                                                                                                                                                                                                Imagem: Pixinguinha tocando saxofone, 1940.

                                                  Acervo Pixinguinha / Instituto Moreira Salles.

Há controvérsias na data de nascimento do famoso músico carioca. Segundo a maioria de seus biógrafos, menciona-se o dia 23 de abril de 1898 como a data correta, e foi oficializada pelo Instituto Nacional de Música. O próprio Pixinguinha mencionou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, afirmando o seguinte: “Nasci em 23 de abril de 1898, no bairro da Piedade. A rua não posso precisar” (CABRAL, 1978, p. 21 – 22). Entretanto, em seu registro de batismo, na Igreja Matriz de Santana (não havia certidão de nascimento nessa época), consta que ele havia nascido um ano antes, ou seja, em 23 de abril de 1897. Pixinguinha nunca aceitou essa data. Durante toda sua vida, ele manteve 1898 em seus depoimentos e homenagens. Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha (Rio de Janeiro, 1897-1973), era filho de Raimunda Maria da Conceição e do também músico flautista Alfredo da Rocha Vianna (1864-1918).

Quase sem infância: trocou brinquedos por instrumentos musicais

Pixinguinha iniciou suas atividades musicais muito cedo, fazendo com que os musicólogos que analisaram sua vida acreditassem que o garoto não tinha outras atividades além dos estudos da arte harmônica. A impressão seria de que não participava das brincadeiras de rua com os meninos de sua época, e que só a música lhe interessava; mesmo assim, gostava de soltar pipas e jogar futebol.

Vários pseudônimos foram mencionados para o garoto em sua meninice. Sua avó africana chamou-o primeiro de “Pizinguim” (acredita-se que o termo, no dialeto falado por ela, possivelmente seja do grupo linguístico banto: “menino bom” ou “bobo”), chamaram-no também de “Bexiguinha”, por ocasião de ter contraído bexiga (varíola), e depois de “Pixinguinha”, que ficou famoso.

Pixinguinha começou seu aprendizado musical no cavaquinho com seus irmãos Léo e Henrique, e tinha uma flauta rudimentar com a qual tirava músicas de ouvido. Já nas primeiras lições de cavaquinho, todos, inclusive o pai, começaram a notar um dom especial no garoto. Ele tinha muita facilidade para aprender música, além de um ouvido excepcional. Seu Alfredo ficou entusiasmado com as habilidades do menino e estimulou-o a ouvir mais música. Passou a levá-lo aos bailes onde tocava, para que assim pudesse cada vez mais se aprimorar.

Pixinguinha teve seus primeiros conhecimentos na pauta musical com o professor César Borges Leitão, tendo aulas por meio de um método do famoso maestro Francisco Manuel da Silva. Após sabatinadas aulas de lições e teoria, o garoto Pixinguinha conseguiu tocar a flauta, seu desejo era tocar a requinta (pequeno clarinete), mas o pai o queria tocando flauta, pois pretendia fazer dupla com o filho, seguiriam então, os dois Alfredos. Mais tarde, o talento precoce favorecia seu desenvolvimento como instrumentista, já ouvia e escrevia na pauta musical. Com apenas 11 anos, já acompanhava o pai e começava a compor. Desta época veio o seu primeiro choro, “Lata de leite”.

Um ano extremamente importante na biografia de Pixinguinha foi o de 1911. Próximo a completar 14 anos, desfilou no carnaval carioca integrando a Orquestra do Grupo Carnavalesco Filhas da Jardineira, onde o diretor de harmonia era Irineu de Almeida, compositor, músico da Banda do Corpo de Bombeiros e também um dos professores de música de Pixinguinha. Lá estava ele, de calça curta, com boné azul e solferino (as cores do grupo), tocando na flauta as músicas das Filhas da Jardineira, um grêmio fundado em 1905. E tocou tão bem que foi chamado no ano seguinte para ser o Diretor de Harmonia de outro grupo carnavalesco muito importante, o Paladinos Japoneses.

A flauta que Pixinguinha tocava era de fabricação italiana, presente de seu pai, Alfredo. Foi com essa flauta que estreou em disco, também em 1911, integrando um conjunto denominado “Choro Carioca”. Esse conjunto era liderado por Irineu de Almeida e tinha nos violões dois de seus irmãos: Otávio e Leo; como ainda o seu outro irmão Henrique, no cavaquinho.

Irineu de Almeida era muito amigo do velho Alfredo, acabou decidindo morar na mesma casa da família Vianna com sua mãe e dois filhos, residência que logo foi transformada numa pensão. Ficaram no quarto do quintal, assim o mestre de música teve mais tempo para aprimorar o garoto Pixinguinha. A partir deste momento a pensão dos Vianna tornou-se ponto de encontro de músicos e compositores da época.

Nas páginas do surpreendente livro de Jairo Severiano, assim está escrita a movimentação desses artistas: “Pixinguinha cresceu cercado de música e de músicos, a começar por seu pai, que também se chamava Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos Telégrafos e flautista nas horas vagas". Em seguida, as palavras ditas pelo próprio Pixinguinha: “Desse grupo de chorões faziam parte o Irineu de Almeida, o Candinho do Trombone, o Neco, o Quincas Laranjeira e outros”. (Severiano, 2017, p. 81).

Na faixa dos 16 ou 17 anos, ao começar a vestir calças longas, Alfredo da Rocha Vianna Filho já se destacava como um renomado instrumentista nas rodas de música cariocas. Isso se deve ao fato de que o Catumbi, seu segundo bairro, estava situado em uma área rica em manifestações musicais de raízes afrodescendentes, além do choro e da modinha, entre outros estilos. Regiões como Catumbi, Saúde, Cidade Nova, Estácio de Sá, além de partes do centro carioca e Gamboa, abrigavam uma significativa população de descendentes de africanos, onde as conhecidas tias baianas organizavam festas que se estendiam por uma semana. Nesse contexto, a Praça Onze era considerada, nas palavras de Heitor dos Prazeres, "uma espécie de África em miniatura". 

Ainda rapaz novo, Pixinguinha já não precisava da ajuda da família para se sustentar. Trabalho não faltava para um flautista com aquele talento. Por isso, quando morreu o seu velho pai, Alfredo da Rocha Vianna, em 1918, já estava devidamente encaminhado profissionalmente e não passou por certas dificuldades financeiras.

Nesse momento de sua vida, que começou a compor músicas, incentivado pelas obras do compositor Donga, Pixinguinha compôs a linda valsa “Rosa”, obtendo sucesso imediato. Depois compôs o choro “Sofres porque queres”, alguns maxixes e o samba “Já te digo”. Além de “Rosa” e “Sofres porque queres”, ficaram famosos na lista do artista os chorinhos "Carinhoso", “Um a zero” e “Ingênuo”.

 Pixinguinha em Paris

Um momento decisivo abriu novas oportunidades para ele. O cinema já era uma realidade no Rio de Janeiro. Naquela época, os filmes mudos eram acompanhados por música ao vivo, e orquestras tocavam na sala de espera para entreter os espectadores. Era um grande sucesso da época. As salas de cinema eram vistas como lugares luxuosos e frequentadas pela elite. O jovem ficou impressionado com tudo isso e não hesitou, saiu para encontrar seus antigos amigos e formar uma banda. Assim surgiu Os Oito Batutas. Uma combinação notável de músicos que se destacou tanto no Brasil quanto no exterior. Os verdadeiros Batutas foram formados por Pixinguinha (que tocava flauta e depois saxofone), Donga (no violão), China (violão e voz), Raul (violão), Nelson Alves (cavaquinho), Luiz Pinto da Silva (bandolim e reco-reco), José Alves Lima (bandolim e ganzá) e Jacob Palmieri (pandeiro). Pixinguinha e seu grupo alcançaram um enorme sucesso. Entre 1919 e 1921, percorreram diversas cidades brasileiras. Um ano depois, em 1922, seguiram para a França.


 

Oito Batutas, conjunto musical brasileiro criado em 1919 no Rio de Janeiro e formado por Pixinguinha.

                                                                     

https://pt.wikipedia.org/wiki/Oito_Batutas

 

 

Em 1922, Os Oito Batutas embarcaram rumo a Paris, capital francesa, iniciando assim a primeira excursão internacional de um conjunto popular brasileiro. Pixinguinha era o destaque nas apresentações. Fazia variações, floreios, “fugia” das partituras, criava um universo todo particular ao tocar. Flautista do alto quilate, executava melodias dificílimas, geralmente de sua autoria. Foi em Paris que Pixinguinha ganhou seu primeiro saxofone, presenteado pelo amigo e patrocinador da viagem, o empresário Arnaldo Guinle. 

Referências:

CABRAL, Sérgio. Pixinguinha: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Funarte/Mec, 1978.

SANTA ROSA, Nereide Schilaro. Pixinguinha, menino bom que se tornou imortal. São Paulo: Editora Scipione/Ministério da Educação - FNDE, 2003.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da Música Popular Brasileira: das origens à modernidade. 4ª ed. São Paulo: Editora 34, 2017.

Revista de História da Biblioteca Nacional (“Estátua majestosa da música”,  páginas: 56 a 60), São Paulo: Ministério da Cultura/FNDE, Edição nº 83, agosto de 2012.

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(*) Textos adaptados pelo autor, em comemoração ao Dia do Músico, 22 de novembro de 2025.

 

 

 

 

Um comentário:

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