A Suíça da Paraíba, ainda o velho Nordeste
Transcrição de Francisco C. Furtado. (In memoriam de José Arruda Amorim).
“A Sudene? Este bicho ainda está para chegar aqui!”, diz José Arruda Amorim, prefeito recém-eleito de Bonito de Santa Fé, município paraibano de 8.500 habitantes, encostado ao Ceará e Pernambuco, que nunca recebeu nenhum benefício ou assistência nos nove anos de vida da Sudene. “Por ser menos gente que outras cidades da Paraíba,” o Senador Argemiro de Figueiredo o chama de “a Suíça brasileira”, o que talvez signifique que a Sudene é o Bonito de Santa Fé da Europa. Na realidade, entretanto, o município de 65 anos voltará ao poder, depois de vinte anos de domínio dos ex-pessedistas.
José Arruda Amorim é um prefeito ex-udenista. Em sua cidade só se fala em transportes, pois não há carros, nem caminhões, nem ripários de táxis, nem ônibus de transporte coletivo de carga ou de passageiros. Com os jumentos não é assim: em Bonito de Santa Fé há um número tão grande de jumentos quantos são os votos da cidade, e foram 4.004 votos nas eleições do último pleito.
Também no município não há um único quilowatt de energia elétrica (mesmo assim, a Prefeitura possui um relógio de luz) e nem água encanada. Seus 3.000 habitantes — dos quais 1.800 sabem ler e escrever e 240 professores (alguns mal sabem ler) — recebem apenas água de uma cacimba (poço) da Serra do Bodopitá.
Os eleitores escolheram agora um prefeito ex-UDN que obteve a maioria dos votos sobre o ex-PSD. O grande número de professores se deve ao fato de que o ginásio da cidade também funciona como grupo escolar primário. Atualmente, o prefeito Amorim, que agora é prefeito, já era médico. “É o único médico” — comenta um habitante de Bonito e Santa Fé — e não há nenhum outro médico. O prefeito tem consultório médico-odontológico e cuida como ele diz.
ÁGUA E LUZ
Há muitos anos os postes estão instalados, mas falta saber quando chegará a energia elétrica. Quando vier, será uma bênção enviada por Deus. Não há telefonema e o Estado de Comércio só discute quando começa o desenvolvimento da cidade. “O governador deve construir o hospital,” comenta Amorim, “porque a terra é carregada com lombo de jumento. Há duas farmácias na cidade e, segundo o Prefeito Amorim, “não há quem faça remédio pronto no hospital e a maternidade, construídos com dinheiro doado pelas famílias, estão vazias”. Isso talvez mostre que, nessas regiões, talvez haja condições para o desenvolvimento quando aparecer água e luz. Bonito é completamente diferente do que NC$ 300,00 por mês — Amorim ganhou o apelido de “Zé do Povo” na campanha eleitoral, sempre vestido de “slack” tipo harem, já agora ponto do seu programa: a construção de duas lavanderias públicas.
UM PISTOLEIRO EM SANTA FÉ
Amorim pretende, se puder, fazer viagem de trem toda semana de João Pessoa a Recife para ver se consegue arrancar alguma coisa do governo e aumentar o que chama de “os bonitenses”.
“A Sudene não apareceu, os bonitenses”, “os do Bonito”, como se chamam, não sabem de nada. A cidade vive na mesma miséria de sempre, com um grande número de crianças desnutridas e analfabetas. A ginásio no município conta com o primeiro primário e o segundo primário, mas não tem professores suficientes.
O prefeito eleito de 1964, o ex-PSD Antônio Lima, homem trabalhador, procurou desenvolver a cidade dentro de suas possibilidades. Sua esposa, Áurea de Almeida, comenta: “A Sudene não fez coisa nenhuma. Nem fez e nem mandou fazer.”
O prefeito Amorim foi entregando a cidade a José de Dó, que venceu as eleições e agora pretende visitar os velhos pistoleiros da região. “Talvez temesse que o pistoleiro José de Dó, pistolão do novo prefeito, quisesse andar com ele” — conta o vigário. José Amorim é um novo prefeito, e a esposa do ex-prefeito Antônio Lima, Jorge, um americano que visita a cidade todos os anos, comenta que “só chega ao Bonito quem tem muita coragem”. E lembrou que o prefeito Amorim pretende ir a Campina Grande treinar e estudar para melhorar e talvez voltar para Ohio.
Artigo da revista VEJA, 11 dez-1968.
Fonte: Arquivo do Dr. José Arruda Amorim, 1968.
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